2013, ou sobre a nossa impotência analítica em uma sociedade polarizada

(TW: muitas aspas)

A última coluna que assinei datava de 27 de junho de 2013. Faz pouco tempo, mas foram tantos os acontecimentos que se sucederam desde que comecei a arranhar um entendimento sobre as “jornadas de junho”, que me sinto na obrigação de, no retomar desse exercício de escritura semanal, retornar ao tema.

Agora, como na época, não tenho a pretensão de alcançar, sobre o fenômeno da nova onda de manifestações que tem tido lugar no Brasil desde junho, nenhuma conclusão definitiva. Espero, porém, tecer algumas considerações que me pareçam úteis para analisar as manifestações com a seriedade e a isenção que elas merecem – especialmente depois da morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band, no Rio de Janeiro, que acirrou ainda mais o embate ideológico que já se desenhava anteriormente.

Eu disse, no ano passado, que era intrinsecamente raso e metodologicamente inútil discernir, no corpo um tanto amorfo e, por definição, mutante, das manifestações, entre “manifestantes ordeiros” e “vândalos”. Busquei, na época, apontar para o vazio abissal dessa divisão e para o tanto que ela se constituía em um franco desserviço para qualquer análise minimamente honesta sobre o tema. Fui, então, acusado de apoiar os “vândalos”, tanto por militantes de direita quanto de esquerda. É o mal dessa internet, povoada, de um lado, pela fina flor da militância figadal e claramente partidarizada e, de outro, pelos frutos impensados do senso comum “lei e ordem”, que engolem e regurgitam a proto-opinião da mídia majoritária sem qualquer tipo de questionamento.

Estranho e consternador notar que, quando cuidamos das manifestações de rua, parcela considerável dos apoiadores do governo federal, que se dizem de esquerda, tem o seu discurso muitíssimo afinado com a mais hidrofóbica e delirante direita: criminalizam sem peias aqueles que não são capazes de compreender; demonizam os manifestantes; atribuem as manifestações populares às mais elaboradas e rocambolescas conspirações políticas.

No que tange à direita mais acerba, ou à grande massa de seguidores de Sheherazades e Datenas que militam sempre pelo senso comum que nos corrói e nos divide, temos sempre as delirantes teorias de que o próprio governo federal estaria por trás (direta ou indiretamente) do “generalizado vandalismo” que veio macular as pacíficas manifestações “contra a corrupção” para que, assim, pudesse abrir caminho para o tão esperado (pela direita) golpe comunista que, segundo, as chamadas “cabeças pensantes” à destra, já estaria em andamento desde a eleição de Lula, ou antes.

No caso da militância de esquerda (podemos chamá-la assim?) que apoia o atual governo, vemos, não raro, surgir a insinuação (patética) de que as manifestações de rua vem sendo insufladas pelo PSDB, velho adversário do Partido dos Trabalhadores no plano eleitoral. Ou pelo PSOL, partido que, saído das entranhas do próprio PT, tem honrado, no limite de suas limitações políticas, econômicas e de quadros, o necessário papel de ser uma oposição institucional “à esquerda” contra um partido que, depois de sua chegada ao poder, preteriu muitos de seus declarados ideais em nome de uma rançosa e (para muitos) decepcionante governabilidade.

Nos dois casos, há a construção de um assustador “inimigo oculto”. Ele, em um revival da Guerra Fria, que seria delicioso se pernicioso não fosse, é, ora, alimentado pela “velha direita”, “pelo PIG” e “pela CIA”; ora pelo “PT, PSOL, PSTU, PCB” (assim, em conjunto uno e indivisível), ou por Cuba, Venezuela, Coréia do Norte e outras “potências do mal”. Onde, então, traçar os pontos de identidade entre os discursos à destra ou à sinistra, sendo que, para eles, as raízes de todo o mal residem em espectros ideológicos opostos? Em dois pontos, eu responderia.

Em ambas as pontas, da direita hidrofóbica de oposição sistemática ao mais dogmático governismo, temos a eleição de um inimigo palpável único, o boi de piranha e bode expiatório visível das manifestações: o minúsculo Black Bloc . Foi o Black Bloc, segundo a Globo e a Veja (PIG) e o seu adversário, o PT, que matou Santiago Andrade. Foi ele, Black Bloc, mascarado, anarquista, inexplicável segundo a ótica partidária e binária, quem lançou o rojão assassino. Só que, para a direita, Black Bloc e o PT da presidenta guerrilheira são plenamente identificáveis entre si. Para o PT, lado outro, o Black Bloc só pode ser fruto do PSDB, do PSOL ou de quem quer que lhe faça oposição. São duas partes em conflito direto que disputam um inimigo, o que, pelo menos em meu tempo de vida, é inédito e deveras inusitado. Esse, o primeiro ponto.

O outro, mais rasteiro, reside em uma certa identidade tática, a que se nega a analisar o novo, apegando-se, preguiçosamente, a velhos modelos. Negando-se a analisar o fenômeno das manifestações por si mesmo, negando-se sempre a partir da observação do fato e pulando direto da pista para o camarote, direita e esquerda lançam mão de paradigmas no mínimo ultrapassados para analisar o presente. Apesar de ausente de nossa realidade política, a Guerra Fria, ao menos nas redes sociais, parece estar ainda muito presente em nossa cultura. E é de lá que parecem sair as conspirações que turvam o entendimento.

Os Black Blocs, hoje, são a nossa CIA, nossa KGB, nosso “Ouro de Moscou”, nossos iluminatis, nossos “ agentes de Washington”. E eles, meus amigos, não são nem mesmo “eles”. Desafio vocês a procurarem, na internet, a autodefinição de Black Bloc, para que se maravilhem com o fato de que eles não são, sequer, um grupo.

Os míticos mascarados, que tanto estimulam a nossa imaginação viciada em categorias dos anos sessenta, surgiram, na década de oitenta, exatamente para tomar a frente das manifestações e proteger os manifestantes contra o universal afã repressor das polícias. Tinham e tem, ainda, um viés anticapitalista (quebram sim umas tantas vidraças de empresas identificadas com a opressão capitalista), mas não machucam pessoas. Machucou gente, mascarado ou não, não é Black Bloc, pois uma das coisas que define o Black Bloc é, justamente, não machucar pessoas.

Concordo que o “rosto coberto” e o dito “anonimato” tem o condão de suscitar fantasias conspiratórias. Mas por que ceder a elas tão rapidamente? Nossa geração tem um grave defeito: a pressa. Queremos entender o outro, mormente se ele nos ameaça, com a rapidez de um click. Infelizmente, não será possível, não nesse caso. Nossas categorias caducaram. Falharam também em relação a outro acontecimento recente: os rolezinhos. A direita tachou, rapidamente, esses encontros entre jovens de periferia em centros capitalistas de consumo como “baderna”. Desconheço palavra mais rançosa e datada do que baderna, mas não podemos negar que ela está, novamente, em voga. A esquerda, por sua vez, correu a fazer deles movimentos sociais ideologicamente alinhados com seus ideários. Se, no entanto, a inicial hostilidade das polícias e das empresas que administram os centros comerciais puxavam os rolés para a simpatia das esquerdas, eles, em sua origem, não podem ser identificados com viés ideológico algum.

Parece-me que as velhas categorias de análise, que até bem pouco tempo atrás serviam para explicar os mais variados fenômenos sociais, estão caindo por terra. Podemos continuar no mesmo ou mergulhar no novo. Não garanto que a segunda opção irá render algum tipo de consenso, mas a primeira, certamente, não irá. Que tal se tentássemos deixar de lado o camarote de nossa torcida de preferência e passássemos a analisar os fenômenos de 2013 sob novas chaves?

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