Arquivo Mensal: março 2014

Em defesa do anonimato

Na última semana uma série de diminutas manifestações defendendo o Golpe Militar varreu o país. Mesmo com participação ínfima, eles receberam ampla divulgação da mídia empresarial e um bom espaço como denúncia nas mídias alternativas de esquerda.

Embora o Brasil tenha um longo histórico de manifestações conservadoras,  a ideia de manifestações em defesa da repressão é uma novidade para quem, como eu, cresceu na Nova República. A verdade é que desde as Jornadas de Junho tenho visto várias novidades pelas timelines e ruas por aí, e devo admitir que ando um pouco perdido. Meus próximos posts no Mexidão são frutos das inquietações que tenho tido desde Junho.

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A quem interessa o adjetivo “universitário”?

Eu estou pesquisando um meio de cancelar meu diploma universitário. Estou ficando com medo de ser confundido com um produto do moedor de carne midiático em que se transformou o ensino superior e os processos a ele associados (escola, vestibular, mercado de trabalho etc).

Todos conhecemos o seguinte script:

  1. alguém abandona a faculdade ou é rejeitado por ela;
  2. essa pessoa realiza algum feito de grande sucesso e se torna modelo e inspiração pra muita gente.

Esse tipo de história é contada da seguinte maneira: o sucesso foi atingido apesar do abandono da faculdade. Eu desconfio do seguinte: o sucesso foi atingido justamente por causa do abandono da faculdade. (A noção de sucesso aqui ventilada não inclui traficantes, políticos profissionais e outros tipos de marginais bem-sucedidos financeiramente, não olhe pra mim desse jeito).

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As estranhas desventuras de Caíque, o neutrão

Meu nome é Caíque. Ou melhor, meu nome é Carlos Henrique do Amaral Gurgel, mas acho Caíque, assim, mais maneiro. Sou um cara assim, neutro, mais ou menos, tranquilão, de boa na lagoa. Não curto extremos nem extremistas. Gosto de levar a vida desse jeito, na melhor, fazendo as minhas coisas que eu sempre fiz. Mas tem sido difícil, saca?

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amigão

uma releitura de raoul vaneigem

paro na porta da cozinha, confiro o uniforme, o avental, a caneta, o bloquinho, a bandeja e, por fim, o sorriso. respiro fundo e percebo que minha alma, ao contrário da do ex-ministro, não cheira a talco, mas a cerveja velha e gordura queimada.  na minha cabeça ecoa a checklist do criolo: “vamos às atividades do dia: lavar os copos, contar os copos e sorrir a esta borda rebeldia”. entro na pista

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Beatnik de boutique

O fascínio pelo passado é uma merda. Uma merda gigante, principalmente quando a gente é tão ligado a essa merda por laços completamente pessoais, dos quais a gente não consegue escapar nem explicar facilmente. Não se trata de um passado pensado, refletido, mas de fantasia, pura fantasia; tem, aliás, sempre um lado racional da gente, um lado do caralho, honesto, íntegro, que te avisa: “olha, a melhor época para se viver é hoje, por mais lixo que seja”. Mas quem disse que eu escuto? Mudei-me pra década de 50.

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