5:29h

Foto da autora

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Madrugada, chuva batendo no telhado e insônia. 3:38 da manhã. Escrever, escrever é difícil. Boa parte dessa dificuldade é culpa da primeira frase do primeiro parágrafo. Uma vez, conversando com um amigo, uma das pessoas que mais lê que eu conheço, ele me falou sobre a força que um bom começo exerce sobre o texto – ou livro. Fiquei com isso na cabeça e desde então passei a escrever mentalmente meus textos tentando, repetidamente, acertar aquela primeira frase. Enquanto ela não sai impecável e esmagadora, não descanso. E assim, várias ideias acabaram se perdendo porque a primeira frase impactante não conseguiu ser elaborada. Os minutos não passam, escrever é muito difícil. Formei em Letras, li a respeito do tema, mas o abismo entre a teoria e a prática, e as manias, escrever pode ser um suplício. Tá escuro, esse quarto sem janela me sufoca, mesmo a chuva lá fora não alivia minha mente. Viro de lado, mas continuo pensando na bendita primeira frase. Quem for me ler, vai seguir depois de correr os olhos pela primeira linha? Se eu ficar nessa posição, quietinha, e sem voltar para aquele sonho redundante que me fez acordar, acho que embalo no sono de novo. 5:02 na tela do meu celular. Se eu abrir meu texto num exercício metalinguístico comentando sobre a dificuldade de inaugurar o primeiro parágrafo de maneira arrebatadora, acho que conseguirei cativar meu leitor, se ele se identificar com essa minha peleja. A chuva parou. Virei de lado. Pensei em uma sequência legal de frases para abrir o texto, mas não tem o botão de “salve” na cabeça. Me levanto, finalmente, e ligo o computador. Arrisco umas palavras. Tento me lembrar das várias propostas que surgiram enquanto eu estava na cama, mas a memória impede. Ah, a primeira frase. Madrugada, chuva, insônia, acho que apelar para a cumplicidade de quem me lerá, ao mesmo tempo tentando criar uma cena (meio cinematográfica), pode ser um recurso interessante. Vou pedir a opinião de meu amigo, amanhã eu mando para ele. Mas vou logo explicá-lo de meu pequeno dilema. Ou será que isso vai induzir sua leitura para um tom de comiseração? Não chove mais, os gatos devem estar bem. 5:29.

 

 

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