A quem interessa o adjetivo “universitário”?

Eu estou pesquisando um meio de cancelar meu diploma universitário. Estou ficando com medo de ser confundido com um produto do moedor de carne midiático em que se transformou o ensino superior e os processos a ele associados (escola, vestibular, mercado de trabalho etc).

Todos conhecemos o seguinte script:

  1. alguém abandona a faculdade ou é rejeitado por ela;
  2. essa pessoa realiza algum feito de grande sucesso e se torna modelo e inspiração pra muita gente.

Esse tipo de história é contada da seguinte maneira: o sucesso foi atingido apesar do abandono da faculdade. Eu desconfio do seguinte: o sucesso foi atingido justamente por causa do abandono da faculdade. (A noção de sucesso aqui ventilada não inclui traficantes, políticos profissionais e outros tipos de marginais bem-sucedidos financeiramente, não olhe pra mim desse jeito).

Essas histórias são propagadas pela mídia de um jeito muito especial; a intenção é fazer com que essas pessoas se pareçam exceções à regra e que sim, você pode ter sucesso se largar a faculdade, mas isso é para poucos apenas, não para você. Essas pessoas acabam se tornando cases midiáticos; quem aparece na grande mídia (TV e portais de Internet) são apenas alguns poucos e célebres. Alías, o que está por trás de coisas como Prêmio Nobel, Oscar, fama, sucesso etc? Justamente a noção de que existem alguns poucos seres humanos especiais, que merecem ser vistos; o resto deve recolher-se à sua insignificância; o anonimato é vendido como um pesadelo. Os profissionais de serviços gerais levam o país nas costas (vide greve dos garis no RJ) mas quem merece ser visto é um Cauã Reymond (e outros genéricos) da vida cujos atributos são 1) ser atraente e 2) ser um péssimo ator.

Voltando para a questão da universidade… eu li esses textos que andaram circulando sobre a “geração Y”, e eles são todos péssimos. Eu desconfio que foram escritos por acadêmicos muito bem pagos, porque nenhum deles toca de fato a questão do ensino superior, o fato que a universidade é vista como uma consequência natural e esperada do desenvolvimento escolar. Quando alguma coisa (nesse caso, a universidade) se torna um caminho pré-definido e aceito com naturalidade, você tem que erguer as duas sobrancelhas, na hora. Afinal a Universidade de Stanford e outras estão inteiras abertas e compartilhadas na Internet, de graça. Porque eu devo fazer um investimento pesado durante anos em uma instituição de procedência duvidosa, se as melhores do mundo estão compartilhando seu conhecimento na Internet sem cobrar nada? É uma pergunta cabeluda, mas calma lá, vamos voltar a ela.

Vamos falar agora de um outro tipo de história. Você provavelmente conhece/é algum desses casos:

  •  a pessoa que faz 2 anos de um curso superior, não gosta, larga, pula para outro curso, faz mais um ano, larga, pula para outro, faz 3 anos, larga e nunca se forma;
  •   a pessoa que se forma em alguma coisa para depois ficar desempregada/perdida/confusa;
  •   a pessoa que se forma e vai trabalhar com alguma coisa que não tem nada a ver com o curso que ela fez;
  •   a pessoa que demora ad infinitum para se formar, virando um dos dinossauros da universidade (comum em instituições públicas) e cujo destino se enquadra geralmente em algum dos itens anteriores.

Eu gostaria de dizer que a “culpa” não é inteiramente desses alunos. Quando essas pessoas vieram ao mundo, muita coisa já estava estabelecida, inclusive o sistema de ensino. Sim, pais e professores, eu estou olhando pra vocês. Se você fez faculdade de Filosofia e agora não está encontrando nenhum lugar para trabalhar (o que é natural), alguma parcela da responsabilidade recai sobre as pessoas que te incentivaram/permitiram fazer isso. Aliás, eu gostaria de fazer um questionamento: com o que as faculdades de Filosofia contribuíram para o pensamento e a literatura filosófica em nosso país? Me diga um grande pensador que saiu dessas faculdades nos últimos anos. Se você citar Marilena Chauí, Luis Felipe Pondé ou algum colunista do UOL, eu juro que vou invadir seu computador e fazê-lo explodir na sua face.

Mas o problema não está em cursar Filosofia (eu sou completamente a favor de estudar Filosofia, por sinal). O problema é encarar a faculdade de Filosofia como um portal para o “mercado de trabalho”, a palavra-chave da propaganda de todas as universidades hoje em dia. E aí começam vários tipos de problemas, começando pelo fato de que a maioria dos cursos superiores sequer te permite pensar em trabalho enquanto você está cursando. Se você já tentou ter um emprego e fazer faculdade ao mesmo tempo você sabe muito bem do que estou falando; mas o problema vai além. Os cursos superiores estão se lixando pro mercado de trabalho; o que você tem que fazer depois de passar no vestibular é tornar-se um com a universidade e atender suas demandas. “Ah, mas isso deve acontecer apenas nos cursos de humanas, prolixos e pouco objetivos”. Pergunte a um estudante de graduação do ITA sobre o contato com o “mercado de trabalho” que é possível lá dentro. Não se surpreenda se nossos futuros engenheiros não souberem desmontar um chuveiro e montá-lo de volta. Ah, mas eles sabem cumprir os prazos, entregar os trabalhos no dia correto, e responder o que os professores querem na prova. Isso soa mais como “mercado de trabalho” pra você não é mesmo?

O perigo está justamente nessa progressão: escola > faculdade > mercado de trabalho. Essa farsa inclui múltiplos participantes:

  • Os pais, que criam os filhos desde cedo obcecando-os com a idéia de ingressar na faculdade. Pode piorar, é claro: muitos pais já escolhem o curso que os filhos irão fazer, geralmente projetando frustrações de suas próprias vidas (eu não pude ser médico, mas meus filhos serão por mim);
  • As escolas, que pouco fazem além de formar vestibulandos. Basicamente os últimos anos do ensino médio são dedicados a aprender a fazer um determinado tipo de prova. Os cursinhos são uma extensão natural e muito lucrativa para os que fracassam na primeira jornada;
  • As faculdades, que fazem propaganda enganosa, cobram mensalidades proibitivas e não entregam o que foi prometido. Você relutaria em investir R$60,000 num imóvel ou numa viagem a essa altura da sua vida, mas você não hesita em investir esse montante (ou mais) ao longo de 4 ou 5 anos para ingressar numa universidade (estou só considerando as mensalidades no caso de particulares, fora o custo de vida e é claro, o preço da cerveja);
  • Os alunos, que muitas vezes utilizam a faculdade como pretexto para empurrar a vida e consumir quantidades obscenas de álcool enquanto decidem o que de fato vão fazer consigo próprios. Quando se está num curso superior, você pode usar a palavra estudante em vez de desempregado, pagar meia pra quase tudo. Pode até mesmo ganhar uma bolsa de estudos! Quem não adoraria receber mil reais e meio mensais para investigar a utilização de proparoxítonas no final dos parágrafos de um texto apócrifo de Kierkegaard? Sério, isso acontece, e geralmente os resultados vão mofar numa biblioteca. Se for o caso, seja ao menos honesto, assuma para quem quer que esteja bancando seu estilo de vida que você está nesse lance para beber, perder a virgindade e fazer tudo o que você não vai poder fazer sem ser ridicularizado após os 30 anos;
  • A indústria cultural:
    vou logo dando a dica

    vou logo dando a dica

    Alguém poderia argumentar: se chama “sertanejo universitário” porque universitários ouvem esse tipo de música. Errado. A indústria cultural é tão espontânea quanto uma patricinha postando um selfie no banheiro. Esse adjetivo, “universitário”, foi cuidadosamente escolhido para caracterizar músicas que se enquadram no seguinte:

  • música “universitária” para homens: aguardar o final de semana > ir para a “balada” > consumir álcool > se atracar com mulheres;
  • música “universitária” para mulheres: arrumar um marido.

Você enxerga o loop? As universidades te prometem o “mercado de trabalho” e a indústria cultural já te dá uma prévia do que te aguarda. Ao associar as universidades e os universitários a esse tipo de música, um trabalho muito bem planejado está sendo executado nos bastidores, porque a massa irá automaticamente associar o ensino superior ao ato de aguardar o fim de semana, após longos e sofridos trabalhos, para consumir álcool (a indústria do álcool é uma das grandes interessadas na “música universitária”) e música ruim. Ou virar uma boa esposa após encontrar um príncipe encantado; tanto faz. O moedor de carne é o mesmo pras duas situações, é preciso cortar gastos, e o sistema precisa do dinheiro de volta.

Você já foi a uma festa de alguma faculdade de medicina? Eu já. Não me pergunte como eu fui parar lá, mas faz seis anos que não entro num consultório médico – pode ter a ver. Adivinhe que tipo de música estava tocando? Pois é. Lembrei que nessa festa eu conheci um cara cujo apelido (eles têm esse hábito de dar apelidos ridículos uns para os outros) era Clorô; ele tinha esse apelido porque ele gostava de fazer uso recreativo de clorofórmio. Ele parecia não se incomodar com o apelido. Hoje ele está atendendo sua mãe em algum consultório médico em São Paulo.

O que o “sertanejo universitário” quer nos dizer é que aquele tempo em que as universidades formavam pensadores, cientistas etc, acabou. Se foi. O que se espera do universitário não é nada além do que se espera do funcionário padrão. Quando digo funcionário eu me refiro não ao trabalhador, mas ao ser humano alienado de sua finalidade enquanto peça da máquina; o funcionário não enxerga o aparelho completamente (este é um conceito de Vilém Flusser, extraído do ensaio Do Funcionário – fica a dica de leitura).

Mas, mesmo que estejamos formando funcionários nas universidades, eu não quero dizer que tudo está perdido; grandes pensadores, pessoas visionárias e cientistas proeminentes continuarão aparecendo aqui e ali. Nem precisamos de tudo isso; pessoas que vejam com seus próprios olhos e pensem de acordo estaria mais do que suficiente, e elas aparecem por aí. Apesar da universidade – é necessário enxergá-la de outro modo, mais além do que uma tábua de salvação ou uma caixa preta com input output, onde seu filho entra “estudante” e sai “empregado”.

As tecnologias estão se transformando e as possibilidades de aprender e acessar recursos educacionais de qualidade sem pagar nada são cada vez mais numerosas. E é claro que as universidades e a indústria cultural sabem disso e a tendência é, cada vez mais, afirmarem que você precisa fazer uma faculdade. Você acha que eu estou exagerando?

á vagas no moedor de carne, mas você precisa aprender a entrar nele, demora de 4 a 5 anos

há vagas no moedor de carne, mas você precisa aprender a entrar nele, demora de 4 a 5 anos

“top de marcas” – a educação é uma mercadoria

“top de marcas” – a educação é uma mercadoria

O que o Felix tem a ver com isso?

“ligações perigosas”

Eu estou me segurando para não abandonar esse texto pela metade. Eu gostaria de te perguntar: o que qualquer um desses três tem a ver com ensino superior? Tirando, é claro, o fato de que se, 1) você é um estudante e 2) está regularmente assistindo esses homens se mexendo dentro de uma tela plana, é possível que sua maior aspiração na vida será um final de semana regado a álcool. Muito em breve. A faculdade passa voando. Esses homens são atores globais, eles não são universitários, nem eruditos, nem cientistas etc. “Mas o Marcio Garcia não está mais na Globo”. Pelo amor de deus, nem comece.

O que está acontecendo aqui? Você acha que essas universidades estão competindo entre si para ver quem ensina melhor? Lembre-se: você está no país onde as pessoas xingam atores que fazem vilões quando os vêem na rua. O que está acontecendo é: quem contrata o ator mais caro? Se a universidade pode contratar Mateus Solano, logo depois de ter feito um sucesso estrondoso na TV aberta, ela realmente deve ter uma boa infra-estrutura e contratar os melhores professores. Certo? Mas se você não possuir os valores envolvidos, vai ter que ir de Marcio Garcia mesmo. Bônus: você vai pagar pela propaganda.

Não se assuste se a palavra “universitário” ganhar novas associações musicais (como pagode universitário etc) e outras ainda (cinema universitário?). Isso já acontece; a indústria cultural tem diversos produtos voltados para a classe universitária de funcionários (seriados e propagandas de bebida são sua melhor aposta), mas estão todos sendo vendidos com (só um pouco) mais sutileza. O fato de algumas categorias musicais já terem escancarado essa relação é só um prenúncio; mas um prenúncio nem um pouco ocasional e muito bem arquitetado. O período da universidade é ótimo para transar e se entorpecer, mas você vai ter que pagar, mesmo que na universidade pública.

Eu não estou dizendo que ninguém estuda nem aprende nada na universidade. Eu fiz faculdade de artes, e o que eu posso dizer? É óbvio que há estudantes e professores que levam muito a sério o que fazem e geram bons frutos para a ciência, educação, sociedade etc. Mas isso é fruto dos esforços dessas pessoas, não de uma entidade chamada “universidade”. Aliás, muitas vezes os cientistas sérios tem que lutar contra a burocracia da própria universidade e a má-vontade de seus colegas acomodados. Não existe nenhum processo automático nessa história. Mateus Solano não estará na porta te esperando de braços abertos.

“Você não vai falar do Gianecchini?” - Sim, eu adoraria falar de como usaram suas fotos em processo de recuperação do câncer nos terminais eletrônicos do Banco do Brasil. Cada vez que eu ia ao banco eu reparava, “esse cara tá ficando cabeludo!”, mas eu vou falar sobre isso em outra oportunidade.

Texto de Rafael Trabasso, artista visual. Conheça o trabalho dele no site: http://dedos.info/ ou visite seu blog em: http://dedos.info/blog/

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