amigão

uma releitura de raoul vaneigem

paro na porta da cozinha, confiro o uniforme, o avental, a caneta, o bloquinho, a bandeja e, por fim, o sorriso. respiro fundo e percebo que minha alma, ao contrário da do ex-ministro, não cheira a talco, mas a cerveja velha e gordura queimada.  na minha cabeça ecoa a checklist do criolo: “vamos às atividades do dia: lavar os copos, contar os copos e sorrir a esta borda rebeldia”. entro na pista

boa noite, seja bem vindo!

a carga horária é alta, rompe a madrugada e não paga adicional. subir cadeiras, descer cadeiras, limpar o balcão, as mesas, os cadápios, os porta-guardanapos, distribuir os saleiros e paliteiros. óleo nas engrenagens que a máquina vai começar. movimentos repetitivos. puxa, chopp, empurra, espuma, passa a faca, troca a tulipa, puxa, chopp, empurra, espuma, passa a faca, troca a tulipa. ponho tudo na bandeja e percebo as voltas que o fordismo deu: de repente parece que a esteira sou eu!

os mesmos  80 metros quadrados recorridos infinitas vezes durante infinitas 8 horas, girando, girando, girando. os requisitos do trabalho não são muito diferentes dos requisitos para o palco: equilíbrio, improvisação e mentir bem. abra um sorriso largo e repita comigo “claro, senhora, já está saindo”.

fique à vontade, senhora! o que posso fazer por vocês?

tantos agradecimentos, tantos giros, tantos sorrisos, tantas alavancas, tantos “com licença”, tantos “me desculpe”, que nem sei mais se estou em uma fábrica ou em um palco. na cozinha é mais óbvio, o fogão é industrial, a fritadeira também.  mas mesmo ali, na caldeira,  o trabalho ainda é cênico: há todo um design dos prato de tira-gosto que merecia ser estudado.

mas o que se produz? o que é, afinal, a soma de todos aqueles sorrisos, gentilezas, álcool, música e pratos bem desenhados?

a noite vai seguindo e o bar vai em um crescente, como uma música que conseguimos cantar mesmo sem nunca termos escutado, um lugar-comum. mesmo que insistam no contrário, os clientes não vêm ao bar pela bebida. em conjunto, músicos, garçons e cozinha, criam um estado de espírito, um estado inebriante do qual o álcool é só óleo na engrenagem. o cliente quer ser servido, quer seus desejos atendidos, quer uma noite de aristocrata.


em que posso lhe ser útil, senhor?

o cliente me trata por amigão, mas se eu derrubar o chopp não paga meus 10%. mas o cliente não quer só chopp. ele quer sua atenção, quer que seus desejos sejam prontamente atendidos, quer ser especial naquela noite e, mais que todos os outros clientes, ele merece um tratamento especial. basta ouvir Nelson Gonçalves, Reginaldo Rossi ou Noel Rosa: o garçon não tem voz, não responde.

 “eu vou minha conta pagar, por isso eu lhe peço atenção…, canta o rei do brega. o malandro do Noel pede pressa e parece ir ao bar somente para ter seu momento de desmandos, seu momento de aristocrata, de rei. e como bom suserano o malandro ameaça: caso não tenha seus desejos todos atendidos, não se levanta nem paga a despesa.

e eu aqui, sem culotes debaixo meu avental, me pergunto: a gente não tinha arrancado a cabeça destes caras?

leio em historie de france, de gouy: “a menor ofensa ao rei custava imediatamente a vida”. na constituição norte-americana: “o povo é soberano”. pouget em père peinard: “os reis viviam opulentamente de sua soberania ao passo que nós morremos da nossa”. e corbon diz em secret du peuple: “o povo significa hoje a massa de homens aos quais são negadas todas as deferências”. por fim, leio na parede do bar, “o cliente tem sempre a razão”. a história do princípio da suserania.

cortamos a cabeça do rei e o sangue espalhou o princípio da suserania de acordo com as regras da democracia que criamos: a cada um a suserania que o salário lhe permite. a república distribuiu a suserania e a vassalagem como se fossem dividendos. o cliente toma todas as liberdades, fala do meu cabelo, olhos e bunda. chama de “amigo” o objeto do seu arbítrio.

bar é uma fábrica de reis. nós criamos um clima para os clientes consumirem a aristocracia por uma noite. dois parênteses: a) o buteco seria outra coisa, ali a metáfora seria a da manufatura, da pouca divisão de trabalho, maior autonomia e produção artesanal; b) a mais valia do bar é até mais fácil de calcular: 10% pra nós, 90% pro patrão. o bar aqui é exemplo, mas existem milhares de fábricas assim: ir no salão para te chamarem de linda por duas horas.

não se enganem, não é uma crítica moralista: todo mundo gosta de ser bem tratado. mas não deixa de ser curioso que na impossibilidade de fundar a vida na soberania de si, tenta-se fundar a suserania sobre a vida dos outros. mentalidade de escravo, de vassalo.

pessoas na sala de jantar, diriam os mutantes. não é a tôa que, quando impedidos de sair de lá pelo anjo exterminador de luis buñuel,  se tornem caricaturas da imagem que faziam de si.

“E pra matar a tristeza, só mesa de bar”. é sexta feira, dia de expurgar uma semana de ordens obedecidas. a garganta coça, pede bebida, mas é para terminar de engolir os sapos. tudo o que se precisa é de uma noite de Luís 14. sobra pra mim.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>