As estranhas desventuras de Caíque, o neutrão

Meu nome é Caíque. Ou melhor, meu nome é Carlos Henrique do Amaral Gurgel, mas acho Caíque, assim, mais maneiro. Sou um cara assim, neutro, mais ou menos, tranquilão, de boa na lagoa. Não curto extremos nem extremistas. Gosto de levar a vida desse jeito, na melhor, fazendo as minhas coisas que eu sempre fiz. Mas tem sido difícil, saca?

Bicho, minha turma é de boassa. Mas quando eu vou tirar uma onda no facebook, sempre dou de cara com a porra do politicamente correto. Colé… Hoje em dia a gente não pode mais contar piada, não pode falar sobre nada, tem sempre alguém censurando sua opinião!

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Veja você: acordei hoje meio politizado. Meu velho me explicou ontem que teve que pagar muito imposto de renda no ano passado. Malha fina, sei lá, não ligo, nunca liguei. Mas que não pode colocar aquela sonzêra no meu carro porque não tinha dinheiro em caixa. Porra, bicho, fiquei indignado!

Fui lá e compartilhei uma denúncia. Coisa simples, todo mundo sabe que é a mais pura verdade.  Meu velho paga impostos pra sustentar vagabundo no Bolsa Família. Não tenho nada contra pobre, porra. Tenho até um amigo pobre. Amigo, colega, sei lá. Filho da minha empregada. Gosto muito dele, mas vai negar que ele é vagabundo! Ele é! Usa roupa de vagabundo, se parece com vagabundo, é vagabundo! Escuta música de vagabundo, o tal do funk. Nem sei se ele recebe o Bolsa Família, mas deve receber! Se ele trabalha? Pô, ele até trabalha, é office boy. Mas tenho certeza que ele nem queria trabalhar. Certeza. Ele é vagabundo, fala igual vagabundo, deve ser desses caras do Bolsa Família, esses caras que não gostam de trabalhar.

Pois é. Lembrei dele e tasquei um compartilhamento no face. Compartilhamento-denúncia, compartilhamento bonitão, de responsabilidade fiscal e tals, porque, enfim, acordei politizado.  Não lembro direito o que o meu compartilhamento dizia. Algo sobre ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Era um lance bem explicativo, é claro que era verdade. Até que, bem logo, apareceu um colega meu de quarta série, um nerd, uma desgraça de um nerd (lembro dele sendo nerd), perguntando se eu trabalhava. Porra, é lógico que não! Eu estudo! Faço cursinho pra engenharia, não tenho tempo pra trabalhar! Dei a real. Ele respondeu que eu não sabia de nada e começou a me jogar um papinho de esquerda. Não sou de esquerda, nem de direita, muito pelo contrário, mas reconheço um papinho de esquerda quando ele pula na minha frente. Chamei o cara de esquerdopata, nome bonito que li na revista que o meu pai assina. Fiquei lindão, na alta, achei que o papo tinha acabado ali. Mas ele insistiu. Escreveu lá uma coisa grande, cheia de links. Nem li. Dei block no sujeito. Não converso com extremistas.

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Hoje, eu não tava a fim de ir pra aula. Tava meio cansado, meio de ressaca. Ontem, fui numa festinha e beijei umas mulé, bebi uns uísque com energético, sempre assim, de boassa, com minha galera. Aí, eu fiquei em casa hoje porque ninguém é de ferro.

Logo depois do almoço, postei no face uma foto que um mano meu tirou da calcinha de uma mina kkkkkk foi muito engraçado, quase mijei de rir. A mina tava bebaça e meu mano tirou uma foto da calcinha dela kkkkkk foi tipo o ponto alto da noite achei do caralho demais kkkkkk calcinha, morro de rir quando eu lembro, a mina bêbada mostrando a calcinha kkkkkk.

Foi quando, do nada, apareceu comentando uma mina no meu facebook me chamando de machista. Porra, eu nunca fui machista! Nunca bati em mulher e gosto de mulher pra caralho! Minha mãe é mulher, ninguém entende isso? Gosto muito de mulher. Inclusive sou hetero (hehehe), mas quando as mulheres não se dão ao respeito (ou o respeito, sei lá), rola de zuar, não rola?  Eu só tava zuando, é humor! Humor! Porra, a gente precisa de fazer humor. Danilo Gentile faz humor, Zorra Total faz humor, cadê minha liberdade de expressão? Eu acho humor do caralho. Respondi pra mina, então (que era até gatinha, mas devia ter pelos debaixo do sovaco), que eu não era feminista nem machista, eu era humanista, pois sou um ser humano que enquanto ser humano nunca bati nem matei nenhum outro ser humano. Escrevi bonito, trabalhei nas vírgulas e consultei um dicionário na internet, que é pra parecer um argumento sério. E chamei ela de mal comida, pois quem não acha graça na calcinha dos outros tem que ser mal comida porque calcinha é engraçado pra caralho kkkkk.

Mas logo vieram várias femininazis invadir meu facebook e me chamar de machista e fazer graça com a minha cara e falar de mansplainng, seja lá o que isso signifique. E eu, porra, a mina mostrou a calcinha, eu não posso zuar a mina? Ela não se deu o respeito (ou ao respeito) e eu só queria fazer humor; humor é garantido na constituição! Mas não adiantou. Logo apareceram outras feminazis e tive que dar block em todo mundo, pois eu sou assim: não suporto extremistas.

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Nada pra fazer aqui em casa, eu meio que achando tudo estranho, não queria mais entrar no facebook mas eu não tinha muito o que fazer e resolvi logar de novo pra dar uma olhada. Eu tava meio triste porque longe da minha turma (que é de boassa) eu tava assim, meio que sentindo que ninguém gostava de mim. Tudo muito paia, quase chorei, devia ser a ressaca, mas sei lá.

Aí eu loguei no facebook e olha, logo na minha frente apareceu uma piada genial, que chamava a galera de um time que não é o meu de gay. Rachei. Olha! Quem não torce pro mesmo time que eu é gay kkkkkkk Gay é engraçado porque gay não é igual a mim, que sou hetero kkkk gay kkkkkkkkk Porra, eu compartilhei. Pra que?

Tinha lá uma foto de um cara de camisa do time rival de calcinha e eu acho calcinha superengraçado, porque ele parecia gay kkkkk eu morro de rir com gay porque nunca entendi os gays Eles me fazem rir desde pequenininho nos programas de TV. São caras que gostam de homem kkkkk sei lá porque eu acho isso super engraçado. Mas logo apareceu no meu facebook um cara me chamando de “homofóbico”. Ah, não! Isso não! Homofóbico eu nunca fui! Aprendi na internet que “homo” significa “igual” e “fobia” significa medo. Não tenho medo de gente igual a mim, porque gente igual a mim é hetero. Então eu fiquei lá, trabalhando na etimologia, com meu único e invencível argumento, até que soltei minhas duas cartadas finais: não tenho nada contra os gays discretos, que ficam lá na deles de boassa e fazem as coias que gays fazem entre quatro paredes; o meu problema era com gays que insistiam em ser gays na frente dos heteros que, enfim, tem alguns valores a zelar. Precisa beijar na minha frente? Usar calcinha? Fazer gayzice? Colé!!!!

Mas, demonstrando toda a sua heterofobia, os caras ficaram me tirando. Disseram que gays apanham e são assassinados e tals. Respondi que heteros também são assassinados e que meu tio Valdemar, cabra obviamente hetero, morreu num latrocínio, quando levaram embora sua vida e a sua pickup mitsubishi. Mas eles disseram que ele não morreu por ser heterossexual. Fui ao Google buscar alguém que tenha morrido por ser hetero, mas estava dando muito trabalho e desisti. Dei block em todo mundo, pois não gosto de extremistas.

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Chateado, fui descansar um pouco do facebook. Porra, que gente chata, esses extremistas do politicamente correto. Não tem senso de humor.

Fiquei bem quieto lá, de boassa, deitado na minha cama, de boa na lagoa. Minha empregada veio me encher o saco dizendo que eu devia estar no cursinho.  Disse a ela que não me torrasse, pois ela era uma preta que recebia bolsa família. A velha tentou dizer alguma coisa, mas bati a porta na cara da vadia.

Entrei pela última vez no facebook, já exausto de tanta ditadura. Ninguém tinha curtido meus posts, mas havia um inbox pra mim. Um cara da minha galera me chamava de gayzinho porque meu time tinha perdido o jogo (tinha até esquecido de assistir). Filho da puta. Chamei ele de homofóbico e fui dormir. Não suporto extremistas.

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