Beatnik de boutique

O fascínio pelo passado é uma merda. Uma merda gigante, principalmente quando a gente é tão ligado a essa merda por laços completamente pessoais, dos quais a gente não consegue escapar nem explicar facilmente. Não se trata de um passado pensado, refletido, mas de fantasia, pura fantasia; tem, aliás, sempre um lado racional da gente, um lado do caralho, honesto, íntegro, que te avisa: “olha, a melhor época para se viver é hoje, por mais lixo que seja”. Mas quem disse que eu escuto? Mudei-me pra década de 50.

Moro em uma Belo Horizonte, uma espécie de cidade fictícia, cenográfica, feita em formato de uma colcha de retalhos onde, se você reparar bem, cabem todas as décadas do século XX. É claro: nós, da grande, salve-salve classe média, temos acesso às nossas épocas de preferência (sempre estilizadas) sem maiores dificuldades logísticas, enquanto que, ao grosso da população, não sobra tempo, sequer, para pensar a respeito.

 A gente, cá em Minas, vive de passado desde não sei quando. Eu não sou um cara destoante: embora esperneante e birrento, sigo a cartilha à risca. Como todo bom belorizontino com síndrome de pouco-enquadrado, procurei nesta urbe supostamente plural um quinhão de passado onde eu pudesse ser feliz. Pressuposto da pós-modernidade, podemos, nós, da classe média, tentar a felicidade na época mítica que desejarmos, não é mesmo? Não vemos os hippies das universidades bebendo, sem compaixão, da boa água dos anos sessenta e setenta? Não vemos a cena punk e dark, por exemplo, tragando com força total certas referências dos anos setenta e oitenta em suas atividades cotidianas, como seu modo de vestir e sua cultura?

Pois bem, como eu já disse, escolhi a década de 50. Sou fascinado por jazz, pelo movimento beatnik, e como chegou a época de eu me mudar para a década de minha preferência (sintoma de amadurecimento em minha cultura), fui, rapidamente, para o centro da cidade, onde eu sabia que a década de 50 ainda estava viva e pulsante.

Busquei as imediações da zona boêmia que eu mais utilizo. Eu queria um lugar para onde eu pudesse me arrastar com facilidade saindo do edifício Maletta, onde, enfim, existem botecos que frequento desde que comecei a beber. Mas não é só. O Maletta, para não conhece BH, é um prédio de apartamentos e escritórios com uma galeria de bares que existe desde fins da década de 1950. Ideal para minha fantasia transtemporal e pós-moderna. Morando lá perto, eu poderia ser um beatnik sem amarras, que enche a cara perto de casa e, depois, sobe ao apartamento para, devidamente chapado, escrever qualquer coisa sobre as minhas prolíficas vivências beat, envolvendo sempre muito álcool, substâncias impublicáveis, gente peculiar e um quinhão considerável de observação da putaria alheia.

Mudei-me para um prédio da década certa, no mesmo quarteirão do Maletta. Para fazer render meu sonho, dividi o apê com dois amigos, haja visto o valor absurdo dos aluguéis de apartamentos no centro da cidade hoje em dia (bolha, copa, sei-lá-o-quê).

O apartamento era fantástico, grandão, e ficava sempre devidamente zoneado (meus amigos jamais me desonram). Além do fatídico toca-discos (era da década de 70, mas quem se importa?), vivíamos numa ambiance totalmente adequada para a realização de minha inteiramente legítima fantasia de viver, em Belo Horizonte, como um autêntico escritor da vanguarda norte-americana da década de 1950. Poderia beber como um Hemingway ou como um Bukowski sem os percalços, por exemplo, de um russo do séc. XIX. Tudo muito confortável e seguro, no aconchego do lar ou em suas imediações. A proximidade da fonte (os botecos do Maletta) me dava aval material e simbólico para o pleno exercício de minha fantasia burguesa de viver em outros tempos. A mobília, herdada dos avós, também. Tudo me direcionava para uma rica vivência de outrora, da minha época de ouro, do passado lindo que eu nunca vivi.

Foi quando, de repente, outros anos 50 começaram a interferir em minhas mui bem fechadas ideias sobre os meus anos 50. Começou timidamente, com o porteiro.

Sempre tive por política não dar muita conversa pros porteiros. Conversava de leve, cumprimentava, dizia bom dia, boa noite, essas coisas. Até porque porteiros não faziam parte da minha fantasia.

Mas havia um porteiro em especial. Era um senhor de uns quase setenta anos e cabelos rigorosamente pintados de preto e penteados pra trás. Usava óculos antiquados e um broche católico de alguma nossa senhora, no peito, cravado em seu uniforme. Ele ficava na portaria do prédio dia sim, dia não, mas foi o primeiro a decorar meu nome. Sabia quando eu saia e quando eu chegava. Dava notícia de todo mundo que saía e que entrava no prédio e fazia questão de deixar isso muito claro pra mim, contando-me coisas absurdas sobre meus vizinhos – coisas eu, aliás, eu não tinha a menor intenção de ouvir.

“A menina do apartamento tal, sabe… estou preocupado com ela. Ela saiu ontem à tarde e só voltou hoje de manhã. A mãe dela mora no interior… Não sei se devo avisar para mãe dela ou não devo…”

Nesse caso em específico, eu, que não conhecia a moça do tal apartamento, simplesmente respondi ao porteiro que ele não deveria ligar para ninguém nem falar coisa alguma, já que ele não era o responsável legal pela moça e não tinha, enfim, nada a ver com a vida dela. Ele estranhou e fez uma estranha careta, já que, na década de 50, era sim do feitio funcional dos porteiros, tomar conta da vida de estudantes solteiras. Mas, achando-me, provavelmente, muito avançadinho pra minha época, mudou de assunto e, provavelmente, anotou meu nome em seu caderninho especial de porteiro vintage.

 Mas essa não foi minha única conversa com ele sobre os demais moradores do edifício (sim, os prédios do centro nos anos 50 eram chamados de edifícios). Comecei a desconfiar que ele não estava ali apenas para ser porteiro, mas para espionar a vida dos moradores daquela década.

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Passaram-se alguns dias, quiçá meses. Continuei vivendo minha louca fantasia beatnik a despeito do porteiro católico. Consegui até escrever alguns poemas mezzo malucos e tive mesmo o ímpeto de vendê-los de bar em bar no Maletta. Consegui me conter a tempo.

 Meu status privilegiado de homem (um homem, certamente, muito avançado para a minha década, mas, enfim, um homem) fazia com que eu gozasse de  invejável liberdade naquele lugar. Bebia todos os dias, tomava whiskey, cerveja ou vinho em casa; ligava minha vitrola na hora que eu quisesse; conseguia, enfim, viver, de forma plena, a minha liberdade de beatnik extemporâneo, da maneira como eu desejava, do jeitinho que eu queria. Estava feliz, pelo menos até perceber que, de alguma forma, todos os porteiros, para além do homem com o cabelo pintado de negro e broche de nossinhora, começavam a me olhar de forma um tanto tortuosa.

Eu sempre voltava tarde, sempre levava estranhos para o apartamento com o intuito de tomar uma saideira. Passava pela face atônita dos porteiros da noite com desenvoltura. Afinal, eu era um artista. Nunca confeccionei porra de obra de arte nenhuma, mas eu era um artista e, como tal, merecia respeito.

Foi quando, em um belo dia (ou melhor, em uma bela madrugada), uma casal desencadeou uma briga em meu apartamento. Eu não os conhecia e até hoje não sei o nome deles, pois fazia parte da minha persona boêmia\ beatnik levar para a minha casa qualquer conjunto de bêbados que ousassem desafiar o relógio e se negassem a dormir depois que o Maletta fechasse. Eles atendiam plenamente aos meus requisitos e, portanto,eram meus convidados. Não sabia, porém, que iam deixar que o desejo latente de se esganarem mutuamente ia se desencadear justamente em minha sala.  Foi assim, um pouco chato. Diante dos gritos, o porteiro interviu e tive que expulsá-los do apartamento, contrariando minhas regras vintage de boa boêmia.

Foi a primeira vez em que fui, no dia seguinte, diretamente repreendido. A década de 50 de meu prédio não conseguia lidar com a década de 50 que escolhi para a minha vida. Quiseram, vejam vocês, me expulsar do prédio só porque mútuas ameaças de morte foram ouvidas desde o meu apartamento! Dois dias depois fui chamado pela síndica, ao seu escritório de advocacia, para resolver, em definitivo, os problemas que eu tinha com a vizinhança.

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“Pedro, é o seguinte: nós, todos os condôminos, achamos que você é um homem muito bem educado”, “obrigado, senhora”, respondi. “Mas não vemos limites em você ou em seus companheiros de apartamento!”, ela retrucou. E passou a dizer que não rolaram apenas ameaças de morte naquela noite, mas cousas muito mais picantes, como, por exemplo, mulheres exibindo os seios nas janelas dos quartos, sexo explícito na sala e outras diabruras sexualmente incorretas para a década de 50.

Eu insisti que sim, eram só ameaças de morte e nada, enfim, muito grave, mas ela reiterava sempre e sempre que naquela noite houve algo assim tão grave quanto sexo e pior: sexo de janela aberta!

Perguntou-me ainda se eu ou algum de meus colegas de apartamento, tinham convidado para a minha casa algumas das inocentes estudantes que eram, segundo eu soube, vigiadas pelos porteiros. Não sabendo responder pelos meus colegas de apartamento, soltei um enfático, sonoro e verdadeiro não. Ela me veio então com um pequeno sorriso compreensivo. Os anos 50 são um lugar estranho: se você não corrompe as estudantes de cursinho e não as leva para o seu apartamento para fazer sexo de janela aberta, você é, obviamente, gay.

Olhei, então, para as paredes do escritório da síndica, que também era advogada. Vi um Jesus destroçado, um São Francisco abarrotado de bichos nas mãos e nos ombros, umas tantas mensagens religiosas e de auto-ajuda e tudo para mim fez sentido.Eu estava nos anos 50. Até o meu cabelo um pouco maior poderia parecer abusivo para aquele pessoal que nem, sequer, vivenciou o golpe militar.

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Respondi então à síndica que, sim, um número indeterminado de jovens moradoras do prédio foram ao covil (digo, apartamento) de dois homens solteiros e ao meu. E que eu, bom católico que era, não tinha feito cousa alguma, mas que não podia, tampouco, falar pelos meus  companheiros de quarto. Confessei que um deles, inclusive, tinha ligação com o Partido Comunista, estudara na União Soviética e que falava, vez ou outra, em ameaçar o status quo capitalista de nosso belo Brasil.

Ganhei um sorriso,um aceno, um afago no cabelo e, desde então, sou tido e havido como bom menino nos anos 50. Meus colegas estão sendo observados, mas e daí?

Acho que, pelo transcorrer do tempo (não sei se já estamos em 1964) algum deles pode ter sido preso, haja visto que sumiu. Mas e daí? Continuo sendo o mesmo beatnik que eu sempre desejei ser e acho (acho mesmo) que não tenho responsabilidade alguma pela ideologia alheia. Afinal, não estamos em 1965 de verdade, estamos?

 

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