Categoria: Arroz

Beagá, 15 de março. Eu fui

Eram 9 e 50 da manhã do dia 15 de março, domingo, quando saí para a Praça da Liberdade, na região Centro-Sul de belo Horizonte, para conferir a manifestação de contestação ao governo Dilma Rousseff. Fui de coração aberto, pronto para recepcionar o que poderia haver de construtivo no discurso do pessoal que lá estaria. Contudo, só vi o mais puro ódio, ranço, rancor e, o que eu já esperava, um discurso de frases que não tinham propostas concretas, apenas o já esperado discurso pelo impeachment, pela intervenção militar, pelo fim da corrupção e pela prisão da presidenta e de Lula.

Antes de sair de casa, Alex Escobar, apresentador do Esporte Espetacular, faz uma primeira chamada ao vivo, às 9h25, com “ibagens” da manifestação em São Paulo. Fiquei aturdido, a Globo se dando ao trabalho de cobrir política domingo de manhã? Colocando o Escobar, que é do esporte, para mostrar os protestos? Buguei. Mas saí assim mesmo.

Ao esperar o ônibus em um importante corredor viário de BH, a Avenida Amazonas, eu vi alguns carros com bandeirolas do Brasil e pessoas de verde-e-amarelo-CBF gritando os seus tradicionais brados de “Fora, Dilma”. Dentro do ônibus que tomei para ir à praça [2104 - Nova Gameleira / Faculdade Milton Campos], duas moças trajavam o verde-pátria-amada esperado para compor o figurino da manifestação. (Cabe lembrar também que a manifestação foi num domingo, um dia nada útil em se tratando de transporte público; isso pode ter dificultado o deslocamento de pessoas que, sendo de camadas populares porém descontentes com o governo, poderiam ir para a Liberdade marchar.)

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Olha elas aí, as panelas saindo do armário!

Os domingos na Praça da Liberdade são algo deveras agradáveis. A praça é um dos mais belos cartões postais de BH. A região abrigava, em vários prédios, as secretarias de estado – hoje, os edifícios fazem parte do Circuito Cultural Praça da Liberdade, que tem a proposta de democratizar o acesso à cultura e à arte por meio de equipamentos como centros culturais, museus e espaços do conhecimento patrocinados pelo Banco do Brasil, TIM, Vale, Gerdau e outras empresas. Entretanto, o domingo 15 foi uma exceção. Em vez de somente haver corredores, pessoas passeando com seus animais de estimação e/ou crianças e etc., os gramados, a alameda central e o coreto foram tomadas por pessoas que, majoritariamente vestidas de verde e/ou amarelo, bradavam palavras de ordem contra o atual governo.

Se eu esperava algo de novo na manifestação? Sim, esperava. Que os gritos de ordem pudessem transcender a somente dizer frases feitas de efeito, como “um-dois-três, quatro-cinco-mil, ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”. Deu ruim, galera. O pessoal que se concentrou na Liberdade estava preso ao chavão, ao senso comum, ao que todo mundo já diz. Parecia um grande ninho de papagaios, já que papagaios também têm plumas verdes e amarelas.

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Segundo o Chaves, “Basta” é a esposa do “Basto”.

Fui tomando nota do evento. Bloquinho de papel, caneta e o celular registrando fotos e vídeos. Foi quando um senhor me interpelou perguntando se eu era jornalista. (Que falta faz uma carteirinha da Fenaj nessas horas, o povo parece duvidar do meu labor jornalístico somente por não trajar como tal. É, eu estava de bermuda, tênis e camiseta, como qualquer um dos manifestantes – exceto pelo fato de a camisa não ser de nenhuma das cores da Pátria Amada.) O senhor queria saber para qual o veículo que eu trabalhava e se eu tinha credenciais. Em tempos de midialivrismo e midiativismo, o pessoal tem um fetiche por credenciais que não se explica (não é só do lado verde-e-amarelo, do lado vermelho isso rola também). Se sentiu incomodado porque eu disse que estou podendo fazer meu trabalho por estar num país livre, e ele também poder se manifestar por haver democracia.

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Martin Luther King Jr., perdoai-os, mesmo sabendo o que fazem.

Imbróglios à parte, lá vem o bom Hino Nacional. E uma gafe esplendorosa aconteceu. Não sei se vocês sabem, mas o hino possui duas partes – mal terminou a primeira e a galera caiu na chuva de palmas; a canção continuou e, constrangida, a assistência presente parou de bater palmas e voltou à canção. (Eu não entendo o porquê do Hino Nacional ser tão grande desse jeito; se nem os “patriotas” sabem as suas duas partes de cor, pra que sustentar isso? Redução do Hino Nacional JÁ!)

Com trio elétrico tocando “Brasil, mostra a sua cara”, do Cazuza, havia um grupo de indignados que não parava de gritar “Fora, PT!”. Entendo a indignação do povo, mas… se é fora PT, quem entra no lugar? Havia cartazes com dizeres que me deixavam confuso, como “Eu quero meu país de volta”. QUE PAÍS, CAZZO? Essa pergunta ficou ecoando na minha cabeça, porque com certeza a maioria presente se situava na hegemonia econômica brasileira. Noventa por cento eram brancos, parecendo ser classe média ou média-alta, que tiveram oportunidades de “ser alguém na vida” e agora arrotam a arrogância de pedir Intervenção Militar contra uma “ameaça bolivariana”. Como se o governo do PT fosse esse poço de progressismo todo.

PONTO ALTO da manifestation, quando Belory Hills virou Miami.

PONTO ALTO da manifestation, quando Belory Hills virou Miami.

Em Belo Horizonte, estimo que houve de 5 a 10 mil pessoas. Mais do que isso seria superestimação, menos que isso é subestimar a mobilização ocorrida.

É. Enfim. Quis que a manifestação de domingo pudesse ser algo além de ranço e ódio. Mas não é nada mais que isso. Eu mesmo saí com ódio do ódio, uma reação adversa de quem não compactua com tamanho raciocínio tacanho de pensar que Impeachment e Intervenção Militar são a tábua de salvação. Os gritos de “Fora, Dilma” e “Fora, PT” não são nada mais do que ecos de um oco político-filosofal vazio que só reproduz discursos, frases feitas de efeito e não pensa o país num conjunto.

Se você leu "A Cidade & A Cidade", do China Miéville, vai perceber a concretude do conceito de "desver" nessa imagem.

#LutandoPorUmPaísMelhor usando a técnica do “desver” de “A Cidade e a Cidade”, de China Miéville

Desci a João Pinheiro para pegar o ônibus de volta. Lembrando que naquele mesmo lugar 5 mil pessoas se concentraram para gritar “Fora, Lacerda”, e não teve nem um Globocop para dar um gostinho bom de estarmos sendo vistos. O Fantástico do domingo dedicou um bom tempo à cobertura dos protestos verde-amarelos. E eu me perguntando se as manifestações do dia 13, que também aconteceram, tiveram o mesmo espaço midiático. Por volta de 10 mil pessoas ocuparam a Afonso Pena na sexta anterior e poucas linhas de importância se foi dada a isso.

Em tempo: não venha querer dizer que o grito de “Fora, Lacerda”, ecoado contra o prefeito de BH, é igual aos gritos de hoje; há uma história que preenche este grito, que dá sentido; o “Fora, Dilma” é, ao meu ver, vazio porque não propõe nada. É mais um grito de ódio destilado por camadas sociais que não se contentam com a mudança social acontecida nos últimos anos. Eis aí um ranço escravocrata difícil de eliminar.

“Nem Direita, nem Esquerda, para Frente!”, dizia um dos cartazes. Um “pra frente” à moda Trapalhões, pelo visto. Se a manifestação em si não é um retrocesso do ponto de vista democrático (ou seja, só foi possível de ele acontecer por estarmos sob uma Democracia – frágil, mas ainda é Democracia), o seu conteúdo em muito trazia o passado como se fosse a última bolacha do pacote. Mas não era “pra frente” que se queria andar? Olhando pra trás? Como assim? Buguei.

Coisas (insanas) de um Carnaval em Belo Horizonte

O Carnaval de Belo Horizonte já passou. Já passou?

Terceiro ano seguido que festejo a folia na capital depois de passar sempre fugindo daqui, esse Carnaval coroa muitas das impressões que tive desde 2013. No âmbito dos blocos e das festividades, não vou comentar os surrealismos da gestão municipal de Márcio Lacerda, “prefeito” que diz apoiar o Carnaval, mas só o fez por obrigação depois de muita, muita pressão popular. Dizer que realizou um investimento de R$ 5 milhões é fácil, aplicar ele na realidade que é o gargalo.

Mas vamos falar de coisa boa. Joga o “começa-com-M-termina-com-ERDA” pra lá.

Vamos ao primeiro evento insano e surreal ocorrido. O Pena de Pavão de Krishna, por si só, já é uma deglutição antropofágica. Inspirado na música “Trilhos Urbanos”, do Caetano Veloso, o nome do bloco faz uma alusão a uma fusão de elementos que, a priori, não teria nada a ver com Carnaval. Principalmente sua ligação com o movimento hare krishna – na verdade, essa ligação é posterior; o desejo dos fundadores do bloco (ao meu ver) era poder marcar uma diferença, até mesmo musical, tocando afoxés e ijexá em vez do axé tradicional. O efeito estético é muito flutuante: em vez de o bloco sair loucamente atrás do trio, o movimento que se tem é de caminhar, andar a pé, pé ante pé, com muita tranquilidade. Tudo bem, o bloco ficou lotado esse ano e a Lagoinha quase não dá conta de tanta gente. Mas não há bloco nessa cidade – e quiçá no Brasil – que faça tanta referência a culturas anteriormente díspares para ser um movimento único. O ápice do bloco, para mim, não foi a concentração – com piquenique na Praça 15 de Junho regado a frutas, bolos, biscoitos, sucos, incenso e o som dos hare krishnas. Tampouco foi ver uma multidão de rostos azuis descendo Além Paraíba. Mas a despedida, ao lado do Conjunto IAPI, um lugar rotulado de “cracolândia”, onde há uma “vulnerabilidade social” grande. Uma das últimas músicas tinha o mantra hare krishna como parte. E… bom, o resultado foram mais de mil pessoas entoando o cântico, cantando alegremente, como num transe coletivo carnavalesco espiritual festivo. Registrei apenas 30 segundos, mas acho que dá pra sentir um pouco esse clima

Em que lugar do mundo você ousaria ver esse tipo de cena? Tem coisas que só Belo Horizonte faz para você. Como também sair dos limites da capital e se enveredar em um município da região metropolitana para carnavalizar em uma ocupação urbana. O bloco Filhos de Tcha Tcha, todos os anos, muda seu lugar de circulação, sempre privilegiando locais desprivilegiados – distantes, afastados, precários e abundantes de humanidade. Realizar um carnaval em uma ocupação urbana que está sob constantes ameaças de despejo (na região do Isidoro, que compreende as ocupações Esperança, Rosa Leão e Vitória) transcende racionalidades e te faz perceber uma outra cidade (como já cantou uma vez Makely Ka, deveras excelente cantor-autor de origem nordestina e radicado em Beagá).

A festa no Isidoro. Créditos: Aline Corrêa

A festa no Isidoro. Créditos: Aline Corrêa

 

Misture esse sentimento a uma chuva intensa que caiu no meio do trajeto. No meio do caminho, já víamos trovoadas ao longe. A chuva veio de uma vez, como se fosse um jato de lavagem da alma. O chão de terra batida ora era uma corredeira, ora era um mar de lama, ora um quiabo no qual você tinha que tomar cuidado para não cair e quebrar o pé. Entretanto, mesmo começando a sentir frio por causa da chuva intensa, mesmo preocupados com duas moças que infelizmente passaram mal no trajeto, não digo que o surrealismo de andar da ocupação Esperança à Vitória foi por causa disso anulado. Nem atolar o pé no barro, ficando com lama até as canelas. O surrealismo em questão não está na distopia, mas de uma saída de zona de conforto na qual você vai para um lugar e, internamente, se exclama: “gente, isso existe”. E, antes de escrever este texto, li este sensível relato da Laís Ferreira, que compartilho aqui e deixo como indicação de leitura. 

O Carnaval de Luta e Revoluções de Belo Horizonte corre à revelia daqueles que querem enquadrá-lo como mais um evento turístico na/para/da cidade. Pena de Pavão de Krishna e Filhos de Tcha Tcha foram dois momentos deveras sui generis, inclassificáveis na verdade. O cartesianismo se perde quando se tenta enquadrar manifestações tão diversas em uma caixinha formatada e vendível.

Makely Ka, ele de novo, deu um tiro certeiro quando comentou que

…a retomada do carnaval de BH é consequência direta e difusa da Praia da Estação, do Fora Lacerda, da Ocupação da Câmara, do Resiste Isidoro, do Luiz Estrela, do Tarifa Zero, do Okupa Viaduto e também das manifestações de junho de 2013. Não se enganem, por trás da festa tem muita luta!

Que nos próximos anos, a luta continue presente nesse carnaval belorizontino, cujo ressurgimento se deu graças ao embate político que se estabeleceu na cidade desde que Márcio Lacerda assumiu o prédio de número 1212 da Avenida Afonso Pena. É. Taí um lado bom do homem: ele conseguiu aglutinar várias forças dispersas em um momento político de contestação que se manifesta, dentre outras formas, pelo Carnaval.

Nunca pensei que diria isso, mas obrigado, Márcio Lacerda, por fustigar essa caixa de marimbondo. Segura esse B.O. e não põe corda no meu bloco.

Je suis la petite bombe nigériane

petit bombe

Quando voltei de viagem me deparei com uma série de notícias e manifestações de solidariedade aos jornalistas e cartunistas mortos em Paris por dois irmãos “franco argelinos”. Isso me fez lembrar o atentado recente ocorrido na maratona de Boston, no qual também dois irmãos de naturalidade “checheno-americana”, nascidos no Quirguistão e na Rússia, foram igualmente caçados.

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A tal da tarifa

da @marianabololo
bololos.wordpress.com

Ainda é janeiro, mas nos jornais vejo 30 mil pessoas sendo dispersadas pela polícia de São Paulo com tiro, porrada e bomba. Os colunistas da TV repetem a ladainhavandalismo, baderna e quebra-quebra. Entre os comentaristas de portal as reações são confusas: de um lado os olavetes acusam os jovens mascarados de serem milícia bolivariana do Foro de São Paulo”, do outro os governistas afirmam que o tal black bloc é uma “milícia financiada pela CIA. Em um dos vídeos tenho a impressão de escutar alguém gritar “não vai ter olímpiadas” e um frio me percorre a espinha. Confuso, não sei bem se é 2015 que não esperou o carnaval pra começar ou se é 2013 que ainda não acabou.

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Em defesa do anonimato

Na última semana uma série de diminutas manifestações defendendo o Golpe Militar varreu o país. Mesmo com participação ínfima, eles receberam ampla divulgação da mídia empresarial e um bom espaço como denúncia nas mídias alternativas de esquerda.

Embora o Brasil tenha um longo histórico de manifestações conservadoras,  a ideia de manifestações em defesa da repressão é uma novidade para quem, como eu, cresceu na Nova República. A verdade é que desde as Jornadas de Junho tenho visto várias novidades pelas timelines e ruas por aí, e devo admitir que ando um pouco perdido. Meus próximos posts no Mexidão são frutos das inquietações que tenho tido desde Junho.

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