Coisas (insanas) de um Carnaval em Belo Horizonte

O Carnaval de Belo Horizonte já passou. Já passou?

Terceiro ano seguido que festejo a folia na capital depois de passar sempre fugindo daqui, esse Carnaval coroa muitas das impressões que tive desde 2013. No âmbito dos blocos e das festividades, não vou comentar os surrealismos da gestão municipal de Márcio Lacerda, “prefeito” que diz apoiar o Carnaval, mas só o fez por obrigação depois de muita, muita pressão popular. Dizer que realizou um investimento de R$ 5 milhões é fácil, aplicar ele na realidade que é o gargalo.

Mas vamos falar de coisa boa. Joga o “começa-com-M-termina-com-ERDA” pra lá.

Vamos ao primeiro evento insano e surreal ocorrido. O Pena de Pavão de Krishna, por si só, já é uma deglutição antropofágica. Inspirado na música “Trilhos Urbanos”, do Caetano Veloso, o nome do bloco faz uma alusão a uma fusão de elementos que, a priori, não teria nada a ver com Carnaval. Principalmente sua ligação com o movimento hare krishna – na verdade, essa ligação é posterior; o desejo dos fundadores do bloco (ao meu ver) era poder marcar uma diferença, até mesmo musical, tocando afoxés e ijexá em vez do axé tradicional. O efeito estético é muito flutuante: em vez de o bloco sair loucamente atrás do trio, o movimento que se tem é de caminhar, andar a pé, pé ante pé, com muita tranquilidade. Tudo bem, o bloco ficou lotado esse ano e a Lagoinha quase não dá conta de tanta gente. Mas não há bloco nessa cidade – e quiçá no Brasil – que faça tanta referência a culturas anteriormente díspares para ser um movimento único. O ápice do bloco, para mim, não foi a concentração – com piquenique na Praça 15 de Junho regado a frutas, bolos, biscoitos, sucos, incenso e o som dos hare krishnas. Tampouco foi ver uma multidão de rostos azuis descendo Além Paraíba. Mas a despedida, ao lado do Conjunto IAPI, um lugar rotulado de “cracolândia”, onde há uma “vulnerabilidade social” grande. Uma das últimas músicas tinha o mantra hare krishna como parte. E… bom, o resultado foram mais de mil pessoas entoando o cântico, cantando alegremente, como num transe coletivo carnavalesco espiritual festivo. Registrei apenas 30 segundos, mas acho que dá pra sentir um pouco esse clima

Em que lugar do mundo você ousaria ver esse tipo de cena? Tem coisas que só Belo Horizonte faz para você. Como também sair dos limites da capital e se enveredar em um município da região metropolitana para carnavalizar em uma ocupação urbana. O bloco Filhos de Tcha Tcha, todos os anos, muda seu lugar de circulação, sempre privilegiando locais desprivilegiados – distantes, afastados, precários e abundantes de humanidade. Realizar um carnaval em uma ocupação urbana que está sob constantes ameaças de despejo (na região do Isidoro, que compreende as ocupações Esperança, Rosa Leão e Vitória) transcende racionalidades e te faz perceber uma outra cidade (como já cantou uma vez Makely Ka, deveras excelente cantor-autor de origem nordestina e radicado em Beagá).

A festa no Isidoro. Créditos: Aline Corrêa

A festa no Isidoro. Créditos: Aline Corrêa

 

Misture esse sentimento a uma chuva intensa que caiu no meio do trajeto. No meio do caminho, já víamos trovoadas ao longe. A chuva veio de uma vez, como se fosse um jato de lavagem da alma. O chão de terra batida ora era uma corredeira, ora era um mar de lama, ora um quiabo no qual você tinha que tomar cuidado para não cair e quebrar o pé. Entretanto, mesmo começando a sentir frio por causa da chuva intensa, mesmo preocupados com duas moças que infelizmente passaram mal no trajeto, não digo que o surrealismo de andar da ocupação Esperança à Vitória foi por causa disso anulado. Nem atolar o pé no barro, ficando com lama até as canelas. O surrealismo em questão não está na distopia, mas de uma saída de zona de conforto na qual você vai para um lugar e, internamente, se exclama: “gente, isso existe”. E, antes de escrever este texto, li este sensível relato da Laís Ferreira, que compartilho aqui e deixo como indicação de leitura. 

O Carnaval de Luta e Revoluções de Belo Horizonte corre à revelia daqueles que querem enquadrá-lo como mais um evento turístico na/para/da cidade. Pena de Pavão de Krishna e Filhos de Tcha Tcha foram dois momentos deveras sui generis, inclassificáveis na verdade. O cartesianismo se perde quando se tenta enquadrar manifestações tão diversas em uma caixinha formatada e vendível.

Makely Ka, ele de novo, deu um tiro certeiro quando comentou que

…a retomada do carnaval de BH é consequência direta e difusa da Praia da Estação, do Fora Lacerda, da Ocupação da Câmara, do Resiste Isidoro, do Luiz Estrela, do Tarifa Zero, do Okupa Viaduto e também das manifestações de junho de 2013. Não se enganem, por trás da festa tem muita luta!

Que nos próximos anos, a luta continue presente nesse carnaval belorizontino, cujo ressurgimento se deu graças ao embate político que se estabeleceu na cidade desde que Márcio Lacerda assumiu o prédio de número 1212 da Avenida Afonso Pena. É. Taí um lado bom do homem: ele conseguiu aglutinar várias forças dispersas em um momento político de contestação que se manifesta, dentre outras formas, pelo Carnaval.

Nunca pensei que diria isso, mas obrigado, Márcio Lacerda, por fustigar essa caixa de marimbondo. Segura esse B.O. e não põe corda no meu bloco.

6 comentários em “Coisas (insanas) de um Carnaval em Belo Horizonte

  1. Bruno, que bom que temos um carnaval muito são e real!!!
    Tomar a Pedreira com música, em especial mantras, e fazer a ocupação também de música é de uma sanidade admirável!!!
    Se o prefeito não tem noção do seus investimentos, que tenhamos nós dos nossos.
    Que assim siga o carnaval de Belo Horizonte, atento aos horizontes além do carnaval. E que sãos sigamos todos nós!

    1. Gratidão pelo comentário, Marina! E eu acho que é isso, nós temos noção dos nossos investimentos, naquilo que nos cabe enquanto promotores de um Carnaval transformador e único. Que possamos seguir assim, sem perder de vista o caminho a se trilhar, mas também sem perder a alegria do festejo!

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