Como eu aprendi a parar de me preocupar e a amar a Kátia Abreu

Tive um sonho bem estranho ontem à noite.

Eu estava diante do computador, facebook aberto, e havia acabado de digitar a seguinte frase:

PORRA, DILMA!! KÁTIA ABREU NÃO!! NÃO VOTEI EM VOCÊ PARA ISSO

Contemplei calmamente a minha justa e indignada manifestação de repúdio às correntes especulações da imprensa sobre a nomeação da ruralista para o Ministério da Agricultura, pensando se havia algo a tirar, a colocar ou a alterar em meu breve manifesto político. Nada. Tudo maiúsculo, para dar a entender aos leitores que eu estava sim, gritando. Duas exclamações após cada uma das primeiras sentenças, dando a entender que uma exclamação seria muito pouco para uma merda desse tamanho. Última sentença sem pontuação alguma, posto que quatro exclamações para tão sintética manifestação de repúdio já era pontuação demais. Além disso, a ausência de outra exclamação poderia significar que passei da raiva à tristeza ou perplexidade, ao passo que a falta de ponto final poderia acenar para uma pequena, estreitinha mesmo, abertura ao diálogo.

Com a mão sobre o mouse, preparava-me para publicar o meu pequeno libelo quando, das trevas do fundo do escritório, veio o incisivo alerta, na forma de uma voz cavernosa, quase sobrenatural, que me por pouco não me fez cair da cadeira.

“PARE! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!”

Imediatamente, retirei a mão do mouse. Devo ter ficado alguns segundos, aliás, com as mãos levantadas, suando frio e rezando, para mostrar à poderosa entidade que eu não estava armado, ou coisa que o valha. Por fim, perguntei:

“Deus…é você?”

“Não, meu filho” senti uma mão gorducha e fria no meu ombro, como se o invasor estivesse, naquele momento, querendo me acalmar. “Sou o fantasma do comunismo, aquele que rondou a Europa em 1848. Você certamente já leu alguma coisa sobre mim.”

Meu Deus! Era o cara do comecinho do Manifesto Comunista! Ao vivo, e na minha casa! Eu, que sempre achei que ele fosse algum tipo de metáfora, virei instintivamente para trás, mas o que vi me deixou ainda mais chocado. O cara que dizia ser o fantasma do comunismo era absolutamente idêntico ao ex-ministro da ditadura militar, Delfim Netto. Gordinho, de suspensórios, gravata, óculos de aro grosso. Trazia sobre a cabeça, porém, uma boina parecida com aquela que Che Guevara costumava usar.

Pus-me de pé em um salto e, encarando o suposto fantasma, berrei:

“Você não é o fantasma do comunismo porra nenhuma! Você é o Delfim Netto! Acha que não conheço o Delfim Netto? Saia da minha casa, Delfim Netto! Vá fazer o bolo crescer no raio que o parta!”

Delfim Netto respondeu às minhas palavras um sorrisinho iluminado que, subitamente, baixou a minha guarda.

“Calma, meu filho. Essa é apenas minha imagem atual, devidamente adaptada para a conjuntura brasileira. Ela pode lhe parecer chocante, mas é bastante didática. E não seja ingrato. Acabei de impedir que você cometesse um grande erro criticando a Kátia Abreu no facebook. Você deveria é me dar um abraço. Você voltou em Dilma no segundo turno, não votou?”

Fiz que sim, com a cabeça.

“Você é um sujeito de esquerda, não é?”

Novamente concordei.

“Então: eu impedi que você se tornasse um cara de direita. Se você critica a nomeação da Kátia Abreu, hoje em dia, você passa a ser um cara de direita. Ou, pior, você vira…” nesse momento, o fantasma do comunismo fez uma careta “… A ESQUERDA QUE A DIREITA GOSTA!”

Cocei minhas barbas de esquerda, pensativo, olhando, ora para a tela do computador, ora para o estranho espírito fantasiado de Delfim Netto.

“Como assim?” perguntei, por fim “Kátia Abreu é de direita, não? Ela é contra a reforma agrária, contra as demarcações de terras indígenas, contra os quilombolas, contra a PEC do Trabalho Escravo. Ela ajudou a desfigurar o Código Florestal. A mulher é de direita, seu Fantasma!”

Delfim Netto sorriu novamente e declarou que não, que a Kátia era de esquerda. “Ela apoiou a Dilma, não apoiou? Ela não apoiaria a Dilma se ela fosse de direita. A direita apoiou Aécio Neves!”.

Respondi ao fantasma que não. Várias forças de direita apoiaram Dilma Rousseff desde o primeiro turno e pior: participaram ativamente tanto de seu mandato quanto do de Lula. Acrescentei que foi por tudo isso, por causa de alianças com pessoas como a Kátia Abreu e partidos como PMDB e PP que as pautas de esquerdas não avançaram tanto quando poderiam ter avançado nos doze anos em que o PT esteve no poder.

Ele ouvia a tudo com impaciência. Minha fala foi entrecortada por muxoxos e suspiros do espírito, que, ao fim de meu discurso, estava calmamente batucando com os dedos uma musiquinha na mesa do escritório.

Parei de falar e fiquei esperando que ele contra argumentasse, mas o fantasma parecia absorto, batucando e fazendo com a cabeça sinais de desaprovação e cansaço.

“E aí? Não vai dizer nada? Porque diabos criticar a Kátia Abreu é ser de direita?”

“Ah, você não entenderia. Esquerdismo é uma doença infantil”.

“Quero ouvir seus argumentos, sr. Fantasma. Por favor, não sou assim tão burro. Pelo menos tente!”

Delfim Netto suspirou novamente, me olhou fixamente e disse:

“Olhe pela janela e me diga o que vê.”

Abri a cortina, olhei para a rua e vi, lá embaixo, o que parecia ser uma capivara enrolada em uma bandeira do Brasil seguida, em fila indiana, por meia dúzia de palhaços tristes.

“Mas o que é isso?” perguntei “O que a capivara nacionalista e os palhaços tem a ver com o fato de eu achar que a Kátia Abreu é de direita?”

O fantasma esmurrou a mesa e, enquanto sua cara de Delfim Netto ia enrubescendo, gritou:

“NÃO É CAPIVARA, SUA ANTA! AQUELE É O PIG!” e completou, um pouco mais calmo “E caso você não tenha notado, o PIG está lá fora, junto com a direita, esperando alguém falar mal da Kátia Abreu para dar um golpe de estado!”

Olhei de novo pela janela. Era uma cena estranha, mas nada ali me pareceu ameaçador. Perguntei por que a Dilma não podia fazer nada contra a capivara PIG e os palhaços seus amigos, já que fomentar golpes de estado era ilegal, segundo as leis do país.

O fantasma, então, sentou-se.

“Não é tão simples assim, meu filho. O congresso não deixaria a Dilma fazer nada contra o PIG, pois o congresso é conservador demais. Tentamos amansar o PIG dando dinheiro para ele nos últimos doze anos, mas ele é implacável, incansável. E continua querendo tirar o PT do poder.”

“Mas a Dilma não teve a maioria no congresso nos últimos quatro anos? E a própria Kátia Abreu, ela não é conservadora? Ela não é parte do problema?”

“Ora, tinha, mas não tinha. A base aliada de Dilma vota como ela quiser. São espíritos livres. E a Kátia Abreu pode ser conservadora, mas ela é de esquerda. No máximo, de centro. Afinal, ela apoiou a Dilma.”

“A Kátia era do PFL, Delfim. Do DEM. Ela defende pautas de direita, eu já disse! Ela poderia ter apoiado o próprio Fidel que ela continuaria sendo de direita.”

“Aí é que está!” o fantasma deu um sorriso meio alucinado. “Você não vê?”

“Não, não vejo.”

O fantasma reclinou-se em minha direção, como se fosse me contar um segredo.

“Nós queremos que o PIG pense que a Dilma e a Kátia são de direita, pois assim, esperemos, ele vai se acalmar e desistir do golpe. Para isso, Dilma vai nomear ministros de direita, seguir políticas de direita, fazer tudo que a direita faria se estivesse no poder. Assim como a Dilma, a Kátia, apesar de tudo que ela já disse, já fez e do que ela apregoa, no fundo, intimamente, ela é de esquerda! Apenas governando com toda a forma, toda a aparência de governos de direita, é possível que a esquerda chegue ao fim do mandato no Brasil.”

“Como você sabe que ela é de esquerda?”

“Como você sabe que ela é de direita?”

“Ora, sei por causa de tudo que ela já fez!”

“Mas você não sabe como ela se sente. Eu sou um fantasma, eu sei. Aliás, você sabia que o Donald Trump é de esquerda?”

“Sério?”

“Sim! Inclusive ele será o Ministro das Comunicações de Dilma!”

“Não pode ser!”

“O George Soros também é de esquerda. Estamos pensando em indicá-lo para a Fazenda!”

“Não!”

O fantasma se levantou. Parecia, agora, maior e mais forte, extremamente ameaçador.

“Sim, meu filho! E se você reclamar, o PIG vai se aproveitar disso, da desunião das esquerdas e vai dar um golpe!”

“Mas não votei na Dilma para isso! Não tem outro jeito? Não existem nomes menos desgraçados para indicar? Outra pessoa do PMDB, que não a Kátia…Uma nulidade aí, que não simbolizasse tanta coisa escrota…”

“Olha, estou perdendo minha paciência. Você já sabia que a Kátia estava com a Dilma e voltou na Dilma assim mesmo. Tudo bem: até aí você foi de esquerda. Mas ficar chateadinho porque o previsível aconteceu, aí não pode. Aí você está sendo de direita.”

“Mas eu votei me reservando o direito de pressionar a Dilma para que ela não fizesse escolhas danosas para o país, seu Fantasma. E acho que a Kátia, Donald Trump e George Soros são escolhas péssimas. Além disso, não acho que a porra de um post meu no facebook vai mobilizar a capivara que está lá fora ou levá-la dar um golpe de estado. Vou publicar meu post sim e foda-se.”

O fantasma segurou minha mão, que já estava novamente sobre o mouse.

“Não… não faça isso! Pense no seguinte: por mais que o próximo governo Dilma seja em tudo idêntico a um governo de direita, nós dois, lá no fundo, saberemos que ele será um governo de esquerda. Não seja tão superficial! E tem outra coisa!”

“O que?” perguntei, ainda tentando me desvencilhar da mão de Delfim Netto

“Eu…eu trouxe bolo!”

Ao ouvir isso, ganhei forças, consegui me livrar das garras do fantasma e publiquei o post. O fantasma ficou lívido e foi caminhando para trás vagarosamente.

“Você… você não sabe o que acabou de fazer…”

Atrás de mim, um estrondo. A capivara PIG, entrou voando pela janela, quebrando o vidro. Tinha dentes afiados como os de um tubarão. Antes que eu pudesse reagir, ela já havia estraçalhado o pescoço do Fantasma do Comunismo. Imóvel, apavorado, sem ter para onde fugir, comecei a recitar o Hino da Internacional Socialista. Foi quando a PIG, com a boca cheia de sangue, olhos vermelhos, pequenos e brilhantes olhou para mim e disse:

“PETROLÃÃÃO!!!!”

Foi quando eu acordei, com um berro, suando cântaros, totalmente desorientado.

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Mais tarde, vi notícias sobre a indicação de Joaquim Levy para a Fazenda. O cara é neoliberal, ok, mas não é nenhum George Soros, né? Não postei nada contra ele até agora. Aliás, talvez o George Soros não seja um nome tão ruim assim. Ele é um nome de peso no mercado. Temos que agradar o mercado, ou o PIG se voltará contra nós.

Aprendi também a achar a Kátia simpática. Talvez ela seja de esquerda e nunca conseguiu demonstrar. Sejamos mais compreensivos. Ela não gosta de índio, mas índio, hoje em dia, tem até tênis de marca e anda de D-20. Aposto que comem caviar, esses falsos índios. Tem que bater em todo mundo mesmo. Ela é contra a reforma agrária, mas e daí? Esse discurso de reforma agrária é tão 1963…

E foi assim, meus amigos, que eu me mantive na esquerda. Foi assim que eu aprendi a parar de me preocupar e a amar a Kátia Abreu.

 

 

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