descontexto

emoticons

da @marianabololo
bololos.wordpress.com

ela escreve bêbada, depois de uma epifania na madrugada, eu leio às 9 da manhã, entediado no trabalho. eu escrevo com os nervos à flor da pele, logo depois do acontecido,  ele lê 4 dias depois, à luz de novos eventos. ela escreve depois de muito pensar, ele responde a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

 eu escrevo mal, você lê com pressa.

escrevo várias coisas, uma detrás da outra, complementando com um novo post a cada nova ideia, você lê somente uma das coisas. você escreve da praia, pelo celular, eu leio no ônibus, de saco cheio. não é de mim que estão falando e faço troça, você sente empatia e não vê graça. o corretor ortográfico me corrige e muda todo o sentido, mas você entende tudo. descubro um email seu na caixa de spam, 3 semanas depois, e o desentendido se desfaz. você briga comigo por uma rede social que nem uso mais e acha que não ligo. releio nossas conversas no chat e não entendo do que ríamos. na sua timeline apareceu agora, na minha uma semana atrás. considero tudo subentendido, você não sabe do que estou falando.

você gesticula e faz caretas enquanto fala, eu não entendo seus emoticons. ele é irônico, eu literal.

escrevo com pressa, em uma catarse, você lê com calma, interpretando cada vírgula numa exegese. você acha pedante falar exegese. você está realmente ocupada, mas eu acho que está me ignorando. você precisa de mim, mas não clico no chat para não dar como visto. no chat você brinca com um assunto que começamos ao vivo. fico ansioso porque você não me responde mesmo depois de três mensagens, mas você trocou de operadora. a Tim derruba nossa ligação no meio de uma briga, e enquanto esperamos o sinal voltar, nos acalmamos. a Oi entrega uma mensagem sua 48 horas depois e vejo que fui injusta.

escrevo poesia, você lê como prosa. você desabafa e pra mim parece poema concreto.

conversamos sobre dois ou três assuntos ao mesmo tempo, trocamos textos, vídeos e torrents, os assuntos se misturam, se confundem, me perco nas respostas e não sei mais se realmente estamos conversando ou falando sozinhos lado a lado. você espera respostas, eu curto seu status.  você me responde com um vídeo, na firma bloquearam o youtube.  desabafo sobre meu trabalho na internet, você acha que é indireta (nem tudo é sobre você). tudo o que nos dizemos ao vivo, cheios de carinho, some na memória, mas aquele email duro de uns anos atrás continua na caixa de entrada.

fora de contexto, sem lugar, não sei como dizer.

a letra de forma é dura, não treme nem engarrancha, não toca e nem sorri. escrevo cabisbaixo, suspirando a cada vírgula, você lê em voz alta para outra pessoa, gesticulando com o dedo em riste. você coloca maiúsculas para dar ênfase, eu acho que está gritando. você desabafa no chat, eu preciso tirar a panela do fogo e você fala sozinho por 15 minutos. você, tranquila, termina a frase com ponto, eu leio como se fosse sua posição final e intransigente.  eu, chateada, escrevo com 3 exclamações, você acha que é brincadeira.  você não pontua, eu fico esperando a conclusão.

você liga o skype e eu toco na tela.

eu escrevo algo que você não entende bem, você responde hahaha vou ali beijos. nos comunicamos por dois, três, quatro aplicativos diferentes, tempo e contexto se despedaçam e a conversa vira um quebra-cabeça. será que perdi alguma peça?

 pera, chegou mensagem.

 

 

6 comentários em “descontexto

  1. Muito bom, Matheus!!! Gostei MUITO! (caixa alta e exclamações pra dar ênfase, não tô gritando). Bololo doidimais, como sempre!!! (ênfase) IUHUUU!!! (Agora tô gritando, só pra comemorar ter lido esse texto hoje).

  2. É isso aí, Matheus! A busca tá toda aí, não é mesmo? Encontros, desencontros… Todo mundo é rejeitado e rejeita em alguns momentos, mas o importante é o que se faz com o sentimento de rejeição. Desiste? Guarda rancor? Vinga? Elabora? Compreende? Perdoa? Vamos continuar tentando? Adorei o texto, Matheus! Super legal!

  3. uma saborosa mistura, em consonância com o nome do blog, da tradição da literatura brasileira herdeira do século XIX, com seus diálogos infinitos e com marcas psicológicas, com a condição pós-moderna contemporânea e seus artifícios comunicacionais tecno-eletrônicos.

    (falei bonito, diz aí!)

    :P

Deixe uma resposta para Matheus Machado Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>