Inconveniente

Pagou a passagem, rodou a roleta. Era o 8101 – Santa Cruz/Alto Santa Lúcia, nos tempos que ele ainda não era Move. Numa época que só a Viação Globo comandava a linha. Num tempo que todos os ônibus passavam com exclusividade pela pista busônica da Avenida Antônio Carlos. Numa era que eu gastava até 10 minutos no pico – no pico! – se eu pegasse essa linha, porque os motoristas da Viação Globo são “voados”, “pés-de-chumbo” (quem pega o 8103 – Nova Floresta/Santa Lúcia – entende o que digo).

Começou a tentar vender seus badulaques em prol de uma suposta entidade que removia viciados de crack das ruas. O cobrador foi grosso, como tipicamente são os daqui, e avisa:

– Pode parar! Pode vender nada aqui dentro não!

– Tá bom. Eu não vou vender. – O vendedor foi minimamente delicado, tinha sotaque que não era belorizontino; um chiado no “s” que lembrava o jeito de se falar de Juiz de Fora para baixo. – Desculpa, eu não sabia. Da próxima vez eu pergunto. Sabe como é, a gente tá acostumado a entrar e fazer o nosso trabalho, e aí…

– Dá para você ficar calado? – eis o cobrador novamente grosseiro. (Pessoal, vamos fazer um estudo psicológico e psiquiátrico dos funcionários do transporte público? Estou percebendo uma psicose geral nesse povo…)

– Aí, não! Aí é pedir demais! –  retrucou fortemente o vendedor. – Você já me fez perder uma passagem, calado eu não vou ficar!

O coletivo para. O motorista entra na roda:

– Ô, irmão, ou você fica quieto ou eu vou ficar com o carro parado aqui. Até você ficar caladinho. Ou então você desce.

A porta do meio se abre. Qual seria o problema do cara ficar falando?, me perguntei silenciosamente e testemunhando o acontecido.

– Já falei que não vou ficar quieto! Vem aqui me calar porque eu tô pregando em nome de Jesus, e só Jesus mesmo é quem vai me calar. Porque está escrito…

– Está escrito que vou te jogar para fora do ônibus! Tá vendo não? Você tá incomodando os outros passageiros – diz o cobrador.

– E eu não arranco o carro enquanto você não sair – sentenciou o motorista.

– Beleza! – gritou o pseudopastor – Vou ficar pregando a palavra de Deus aqui.

Um passageiro, em tom de conciliação, se levanta:

– Amigo, por gentileza, eu preciso ir para casa. Pego serviço à tarde. Tenho que almoçar e descansar. Fica quietinho só pro moço deixar eu em casa?

O (protótipo de) pastor responde:

– Mas, irmão, você não está vendo que eu estou pregando não só para você, mas para todo mundo aqui? Porque pode ter algum pai de família, alguma mãe, que esteja com o filho no mundo das drogas…

– Esse negócio de drogas é tudo coisa de vagabundo! - Motorista disse. Não, não foi o motorista. Foi o cobrador.

(Abro o meu parêntesis: observo, pela fala do cobrador, o quão raso e infeliz foi o seu depoimento. Do jeito que ele falou, parece que só pobre, preto e vagabundo é drogado. Aí, pelo Brasil, temos uns governadores, cantores da alta roda e pessoas supostamente respeitáveis que são consumidores da erva, do pó e, em casos mais graves, da pedra e da pilha. A pergunta martela: problema de saúde pública, de escolha pessoal ou “personalidade” fraca? Fechei o meu parêntesis.)

O pseudopastor fica uma fera. Começa a apontar o dedo para cobrador e motorista. E começa uma ladainha sem fim dentro do coletivo. Lamuriando o livro de Lamentações, apostolando o livro de Atos e assim sucessivamente.

Desistem cobrador e motorista. O ônibus segue viagem. E a ladainha comendo solta no salão traseiro.

Chegou meu ponto e estou na porta pronto para descer. Descendo, ao que escuto:

– Pode ficar tranquilo aí, viu, irmão? Que eu vou pregando daqui até o ponto final!

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