Je suis la petite bombe nigériane

petit bombe

Quando voltei de viagem me deparei com uma série de notícias e manifestações de solidariedade aos jornalistas e cartunistas mortos em Paris por dois irmãos “franco argelinos”. Isso me fez lembrar o atentado recente ocorrido na maratona de Boston, no qual também dois irmãos de naturalidade “checheno-americana”, nascidos no Quirguistão e na Rússia, foram igualmente caçados.

Analistas atentam para a emergência de um “terrorismo solitário”, que não obedece a ordens e hierarquias e compõe-se de “psicopatas fundamentalistas” isolados, o que faz com que, em tese, qualquer um que não se enquadre totalmente no ideal racial e cultural ocidental, se torne um suspeito real.

Vejamos. Nos dois casos, o que ocorreu foi a revolta e a falta de adaptação e acolhimento de gerações inteiras, muitas delas refugiadas de zonas de conflito (ou seja, que buscavam a liberdade, igualdade e fraternidade – lema da revolução francesa) e que viam em países europeus ou nos Estados Unidos, uma chance de futuro promissor para suas famílias.

Ou seja. Existem gerações de jovens com cidadania européia e americana – portanto, legitimamente europeus e americanos diante de suas leis – que cresceram vendo as histórias de miséria, exclusão econômica e social, preconceito e discriminação de seus pais e avós, e que sentem na pele tudo isso em seu dia a dia. Talvez por isso a imprensa insista em lembrar que esses “fundamentalistas psicopatas” não sejam de puro sangue europeu ou americano, enfatizando suas raízes genealógicas e contribuindo ainda mais para uma interpretação que associa qualquer tipo de raiz genética ou contato com a cultura árabe com um tipo de “potencial explosivo” contra o ideal iluminista e democrático que tais estados se orgulham em proclamar e reivindicar suas autorias.

Quanto mais xenofobia, mais exclusão. Quanto mais exclusão, mais revolta. Quanto mais revolta, mais radicalismo. Quanto mais radicalismo, mais terror. Quanto mais terror, mais xenofobia…

E por aí vai.

O comportamento dos chefes de estado e governo da França e de todo o mundo ocidental, assim como o alarde e sensacionalismo oportunista dos veículos de imprensa, em nome da bandeira mais curinga de todas as causas – a “liberdade de expressão” só contribui para ampliar a percepção de outros possíveis candidatos a apertar os gatilhos ou se explodir em qualquer lugar. A invasão do mercado judeu, um dia depois do atentado, é a prova disso. O governo francês mobilizou um efetivo de oitenta mil policiais para a caçada de dois amadores, que não contavam nem mesmo com um carro e um local para se esconderem depois do atentado. Todos os chefes de estado mais importantes do mundo estão reunidos para discutir como eliminar terroristas.

Enquanto isso, no final do último telejornal da noite, que como os outros, gastou metade de seu tempo repetindo as mesmas informações do que ocorreu na França, soltou uma curta e breve nota, sem sequer uma imagem ou reportagem sobre o assunto. Na Nigéria, uma “menina-bomba” de apenas 10 anos de idade, que é uma das milhares de crianças e adolescentes seqüestradas por grupos radicais, foi obrigada a entrar em um supermercado carregada de bombas que foram detonadas, matando 20 pessoas de uma vez.

Esta notícia provavelmente não terá grande destaque na imprensa. O problema dos seqüestros, estupros, mutilações e mortes de mulheres na Nigéria já é noticiado há anos, sempre que ocorre algum “incidente mais grave”, mas nenhum dos países que se dizem os inventores e defensores da igualdade, liberdade e fraternidade ou da democracia se preocuparam ou preocupam efetivamente em resolve-lo. Afinal, trata-se de um problema “humanitário” que está bem longe deles e não afeta diretamente suas economias nem seu dia a dia. Além disso, para esse caso, a “relativização cultural” é um argumento a ser considerado para a omissão. Afinal, “na cultura deles, é assim mesmo”.

Desculpem. Lamento por todas as mortes violentas no mundo e não compactuo com qualquer tipo de fundamentalismo ou extremismo, seja ele religioso, moral, cultural ou econômico. Mas minha solidariedade está muito mais com a “menina-bomba” nigeriana, que foi seqüestrada, estuprada, espancada e violentada de todas as formas antes de ser mandada para a morte, do que com o grupo de jornalistas e cartunistas que, em nome da “liberdade de expressão”, insistiam (e continuarão insistindo) em fazer piada com coisa séria.

Je suis la petite fille bombe nigériane

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