O que eu vou fazer com essa tal apropriação cultural?

E o debate vai e volta. Volta e vai, e bate na cara. E reaparece. Depois de uma detida conversa que tive no ônibus domingo passado (25), retornando do Encontro de Comunicadores do Vale do Jequitinhonha, realizado em Pedra Azul (MG), resolvi tentar escrever algumas palavras sobre esse assunto. Que de simples não tem absolutamente nada. Algumas imagens que vi essa semana me deixaram com uma pulga atrás da orelha sobre isso. Como a foto de uma grife que agora está usando o tema dos Orixás para se promover. É, eu estou dizendo que é estratégia capitalista para ganhar mercado, sim.

“Vem despertar teu Exu mais empolgado”??? CARA, cês não sabem com o que estão brincando… Ah, mas não sabem mesmo… Se soubessem, não brincavam…

A apropriação cultural é um fenômeno que acontece no mundo inteiro, mas que no Brasil tem as suas peculiaridades e particularidades. Bom, não sei se vocês sabem, mas o Rock ‘n Roll que o Foo Fighters está tocando pelo mundo na sua turnê (Belo Horizonte também recebeu show deles, quase um milagre eles virem para cá) é oriundo dos pretos que, na década de 1950, criaram esse estilo musical. O rock foi popularizado entre os brancos graças a Elvis “The Pelvis” Presley, que copiando o gingado preto levou o estilo musical aos topos das paradas musicais não só nos EUA, mas em boa parte do mundo ocidental. Outro quarteto de branquelos abelhudos, The Beatles, também foi responsável pela disseminação dessa música. Todos nós conhecemos Beatles, Led Zeppelin, Rolling Stones, Elvis, Pink Floyd, Nirvana e, em nível nacional, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs etc.

Reparem que apenas citei bandas de gente branca porque são, inevitavelmente, as mais conhecidas. Tenho minhas dúvidas se vocês conhecem Black Merda – não, não é merda de bosta, mas “merda” em inglês é a pronúncia de “murder”, assassino em tradução livre. Iniciou seus trabalhos na década de 1960 em Detroit, ficando na ativa até meados dos anos 1970, voltando à carga em 2005. O grupo se considera a primeira banda de rock totalmente negra. Pergunto novamente: você já ouviu falar dos caras? Te digo que, até 2013, eu não conhecia – por um interesse pessoal, meio como um “faro de pesquisador”, eu saí à cata (e saio ainda) de coisas novas (que são velhas) para ouvir e conhecer. Se eu não tenho essa iniciativa, eu-du-vi-do que Black Merda chegaria naturalmente para mim como chega um Rolling Stones da vida. (Ouça aqui um pouco dos caras.)

Daí você percebe que, mesmo sendo uma manifestação preta, as coisas somente chegam em um nível maior porque tem um branco em cima, ou por trás. Tento entender esse fenômeno de invisibilização das manifestações pretas… Será que tem racismo nisso tudo? Será? Interrogação.

Sim, óbvio. Tem o Jimi Hendrix, O CARA da guitarra. Mas, vem cá, além desse aí, que outro negão você lembra que era tão fera e/ou tão famoso? B.B. King. Boa lembrança. Quem mais? Chuck Berry? É, você é entendido de música, não é todo mundo que se lembra dele. Agora, cite para mim cinco nomes de guitarristas brancos. Uau, aí temos Jimmy Page, Keith Richards, Dave Grohl, Steve Vai, Carlos Santana. E eu acredito que você será capaz de citar “n” vezes mais guitarristas brancos que negros. Lembrando que o rock ‘n roll, assim como o Blues, é um estilo originariamente negro.

A apropriação cultural tem seus meandros. Ela é, ao mesmo tempo, difusora e muito perversa. Difusora no sentido de dar, digamos “visibilidade” a certa cultura. Por que não pensar por esse lado? Oras, se não fosse Elvis, um branco classe média que tinha lá seus trânsitos entre os pretos, o que seria o rock hoje? Ainda seria um estilo guetizado? Ao mesmo tempo, a apropriação é deveras, deveras perniciosa, porque tal apropriação é acrítica, não dialoga com a origem da cultura apropriada.

Vou mudar de exemplo, do rock para o samba. Existe hoje uma pá de branquelos (sem ofensas) que cantam um estilo que nasceu nas favelas, no lugar de “gente humilde”. Quando o samba se tornou Samba, era coisa de gente vagabunda, de gente desocupada, de gente, em suma, preta. O preto era visto assim nos primórdios do século 20. Mãe Isabel da Caneta Áurea apenas nos alforriou, esquecendo-se de dar as devidas garantias para a nossa sobrevivência. Daí, vivíamos de bicos, já que ninguém queria gente preta nos seus quadros de funcionários – e como industrializar o país com mão de obra qualificada? Opa, como solucionar isso? Bingo!, bora trazer gringo de fora! De preferência aqueles italianinhos cosa nostra, sangue de trabaiadô, né?, esses sim têm força de trabalho… Esses merecem canções, porque ajudaram a construir o país… (I-TA-LI-A-AAA-NA… La mia vita oggi sei tu…)

Por que tamanha divagação, Bruno? Para que percebamos que sempre o buraco é muito mais fundo que podemos pensar. O samba nasceu nesse contexto aí, de Lei Áurea “libertadora”, mas que não garantiu dignidade à população preta; essa população passa a ser marginalizada; no meio desse contexto, ela cria sua expressão cultural, o samba, que não deixa de ser uma forma de libertação (essa sim, verdadeira) diante tamanho quadro de abandono. Tamanho desleixo com a situação do preto motivava-o, inclusive, a abrir mão daquilo que era seu para poder sobreviver – comuns demais são os casos de compositores negros favelados que vendiam suas composições para que brancos lá de baixo (essa dicotomia tem que ser aplicada sim para a época) as gravassem como se fossem suas. Cartola que o diga. Não tenho certeza se os intérpretes citavam o nome dos reais compositores – no Brasil, é essa a nossa cultura: o intérprete tem mais visibilidade e primazia sobre o compositor, que muitas vezes passa por desconhecido; exemplo: Maria Rita regravou “O Homem Falou”, que é uma canção de Gonzaguinha – muita gente diz, ao pedir músicas, “aquela da Maria Rita”, não “aquela que a Maria Rita regravou, do Gonzaguinha” (mais fácil inclusive encontrar as regravações no Youtube que a canção original). Não me aprofundarei nesse debate, mas eu o cito para que fique melhor visualizável.

Voltando ao que interessa: o branco se apropriou desse estilo musical do preto e, via de regra, sequer deu um “muito obrigado”.

É aí onde reza a merda.

Não seria o maior dos problemas um branco cantando samba porque não é um problema um preto cantando rock, visto que o rock é negro em sua origem – o que ele virou posteriormente, tendo várias vertentes (Punk, Soul, Grunge, Progressivo, Hardcore…), é outro debate; o maior dos problemas é o branco cantar samba por modismo e conveniência, além da certeza do sucesso. Boa, se não grande parte, da apropriação da cultura negra pelo branco se deu nesse esteio, acrítico e a-consciente. Geralmente, branco que se apropria de cultura do negro o faz de maneira irreflexiva, sem fazer um debate sincero de, enquanto pessoa com privilégios (herdados de uma cultura que favorece a branquitude em detrimento da negritude) vem tomar posse de algo de uma galera que já faz isso há tempos, e vem tomar como se fosse seu.

O lado perverso da Antropofagia está se revelando.

Um amigo-irmão, Luciano Jorge, escreveu algo outro dia que eu tenho que trazer para cá. Porque é o cerne da questão da apropriação cultural e a não aceitação de pretos do uso da sua cultura como uma modinha.

“…acho que a questão não é meramente de dizer que [branco] não pode ou não usar [tranças, dreads e tudo mais]. Você faz o que quiser, amig@ branc@, o corpo é seu e as regras são suas. A questão é o esvaziamento, a questão é não saber, por exemplo, qual o sentido dos cabelos para nós, pret@s. Você, moç@ branc@, já conversou com aquela sua amiga negra, que passou por um processo de transição de seus cabelos? Perguntou pra ela como foi o processo? Se você não fez isso e acha que, ao questionar uma menina branca que usa turbante a menina negra está sendo ‘segregadora’, você está esvaziando o sentido de seus usos. Isso quer dizer que eu vou te colocar na fogueira porque você usa turbante? Não. Até porque a gente sabe bem quem era violentado em praça pública por querer existir, né? (Jogar capoeira, orar para seus orixás, dentre outras possibilidades… Tô desenhando porque tem uma turma aí que só sendo beeeem pedagógico mesmo…)”

Por que somente depois que o branco vai e põe a mão é que a cultura do preto fica, digamos, “referendada”? Um preto que questiona o uso que o branco faz da sua cultura não pode ser visto meramente como extremista, mas como radical – porque, indo à etimologia da palavra, busca nas raízes das questões, na profundidade dos problemas, os fundamentos para o questionamento. Esse movimento jamais pode ser taxado de “racismo inverso” porque… ISSO NON ECZISTE! Racismo é relação de poder, e quando é, nesses 350 anos de vivência de Brasil, que o negro pôde oprimir seu oponente branco?

Líderes como Malcolm X pregaram, numa certa época, exatamente a radicalidade e o extremismo para poder se contrapor a um inimigo, que se chamava “homem branco”. A radicalidade num primeiro momento é deveras necessária até mesmo como demarcadora de identidade – foi assim como o Movimento Negro, foi assim como Feminismo, foi assim com a luta LGBT: apenas pretos poderiam militar no Movimento, apenas mulheres poderiam estar no Feminismo, apenas gays poderiam atuar pela causa; hoje, há brancos na luta contra a discriminação racial, homens que apoiam a causa feminista e héteros que lutam contra a homofobia. Mas tudo isso não deve ofuscar a imagem de quem deve(ria) estar no front de tais lutas – quero dizer: um branco jamais pode ser cabeça de um movimento negro (alô, alô, Tucanafro, AQUELE ABRAÇO!), um homem de um movimento feminista e um hétero de um movimento gay. Sabendo-se os lugares de privilégio de cada classe e seus respectivos lugares na sociedade, é possível lutar em conjunto contra as opressões. Mas, repito, privilegiados têm que saber o seu lugar, têm que perceber que a radicalização do discurso é extremamente necessária para que os usos culturais não sejam um fenômeno meramente acrítico e de modinha.

Pensar cansa, meus queridos. Nesses momentos todos nós gostaríamos de ser ignorantes e deixar a vida nos levar. Caminho mais fácil, não é? Mas escolhemos o caminho da reflexão. Não escolhemos? Então DEAL WITH IT.

Para encerrar, deixo aí a título de reflexão a música “Vá cuidar de sua vida”, interpretada pelo mítico Itamar Assumpção. (UPDATE: Lucas Barbi deu um toque nos comentários dizendo que a música foi composta por Geraldo Filme, não pelo Itamar. Corrigindo, Barbi!) Essa canção resume o que eu tendo a perceber em relação a essa tal de apropriação cultural. Lembrando que esse debate não se esgota com este textículo, OK?

Vá cuidar da sua vida
Diz o dito popular
Quem cuida da vida alheia
Da sua não pode cuidar

Crioulo cantando samba
Era coisa feia
Esse é negro é vagabundo
Joga ele na cadeia
Hoje o branco tá no samba
Quero ver como é que fica
Todo mundo bate palma
Quando ele toca cuíca

Negro jogando pernada
Negro jogando rasteira
Todo mundo condenava
Uma simples brincadeira
E o negro deixou de tudo
Acreditou na besteira
Hoje só tem gente branca
Na escola de capoeira

Negro falava de umbanda
Branco ficava cabreiro
Fica longe desse negro
Esse negro é feiticeiro
Hoje o preto vai à missa
E chega sempre primeiro
O branco vai pra macumba
Já é Babá de terreiro

6 comentários em “O que eu vou fazer com essa tal apropriação cultural?

  1. Por falar em apropriação respeitemos o crédito ao compositor da música interpretada por Itamar Assumpção, e composta pelo grande Geraldo Filme.

    No mais o texto é uma ótima introdução ao assunto.

  2. Rock ‘n Roll, caracterizado pela guitarra elétrica, descendente do Blues, que era muito tocado em violão, conhecido também como guitarra acústica… Violão esse descendente das vihuelas ibéricas, ou dos alaúdes que os árabes tocavam… dedilhando as cordas como se fazia nas cítaras… é…

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