Platão à milanesa

Noite no bairro operário, Di Cavalcanti, 1925, Nanquim, 58 x 42 cm

Esses dias eu estava ouvindo uma música interpretada pelo Adoniran Barbosa e eu fiquei com uma parte da letra agarrada no meu cérebro. A música se chama “Torresmo à milanesa”. Mas, antes, gostaria de dizer que a intenção aqui é, como disse uma vez o saudoso Jackson do Pandeirotentar fazer uma embolada.

Recortei apenas uma parte da letra. Para os fins do nosso percurso, ela será suficiente. Observem:

Vamos armoçar
Sentados na calçada
Conversar sobre isso e aquilo
Coisas que nóis não entende nada
Depois, puxá uma páia
Andar um pouco
Pra fazer o quilo

Para quem se interessar, aliás, tem um Programa Ensaio com ele, do ano de 1972, que é muito bom. Mas voltando. A passagem mesmo que ficou na minha cabeça é essa linda imagem de pessoas usando algum tempo de suas vidas para falar “sobre isso e aquilo”, coisas que supostamente não entenderiam nada.

Como indicado no início da música, os personagens da trama são trabalhadores de uma obra qualquer de um centro urbano, o que também fica evidente pela marmita levada para o “armoço”, dentre outros elementos (como o mestre de obras, o arroz e o feijão possivelmente frio e que vai ser comido na calçada de uma rua).

Mas onde entra o Platão nessa história? Ele não é aquele filósofo que viveu há uns trocentos anos na Grécia “antiga”, o cara que vivia numa caverna? Sim, é esse mesmo!

Então, pro Platão, e agora é aquele momento que eu posso deixar um tanto de filósofo indignado pela a minha ausência de conhecimento, as pessoas deveriam, para o bom funcionamento da cidade, ter uma função bem definida. Você é padeiro, eu sou pedreiro e o fulano é professor. Não tem que mexer na ordem. Talvez daí a imagem oposta do Sócrates, não aquele jogador de futebol mas o outro também filósofo, que frequenta os livros da escola como um cara mala que ficava dando rolés pela cidade, fazendo um tanto de pergunta pra todo mundo e deixando todos constrangidos. Aliás, é bem provável que ele também se achasse como um não entendedor de “nada”, alguém que puxasse “uma páiaegostasse de “andar um pouco” depois do rango “pra fazer um quilo”. Salvo engano, acho que é dele a frase “só sei que nada sei”, né não?

Mas voltemos ao Platão. Ele achava que os poetas deveriam ser expulsos da cidades exatamente por que eles mentiam, por que eram criadores de ficção, que não tinham nenhum compromisso com a verdade. Melhor: pra ele os poetas não ocupavam nenhuma função importante na organização social. Eu tenho pra mim que Platão foi tipo o primeiro filósofo-policial, ou policial-filósofo, talvez dê no mesmo, da história da filosofia. Talvez o sentimento de estarmos vivendo em um Estado Policial seja herdeiro desse modelo que atravessou vários séculos e chegou até hoje, mas não vou colocar isso na conta dos gregos… coitados.

E o Adoniran? Então, o que me pareceu tentador de se pensar é que o espaço criado na música entre o exercício de uma função, numa ordem de trabalho, também possibilita o contato e suspende essa lógica, mesmo que momentaneamente. Difícil? Nem tanto! O legal dessa forma de pensar, pra mim, é colocar as pessoas em pés de igualdade para atuarem como sujeitos, mesmo que com a afirmativa, que podemos pensar que é exagerada, que as pessoas não são entendedoras de nada. O que parece ser legal de pensar é que o que está em jogo ali nem é tanto o conteúdo do que foi ou vai ser discutido/falado, que não aparece na letra, mas as disposições e as mudanças nas ocupações. Seria mais ou menos pensar que operário é só operário e não pode ser mais nada, não pode pensar politicamente ou agir como tal. O recado parece ser ao contrário: nesse momento, entre o final do almoço e o retorno ao trabalho, podemos falar um tanto de coisa, que pode ir da política ao futebol, não interessa, mas somos nós e esse tempo é nosso.

Para terminar, fica uma dúvida: será que esse Platão de quem eu falei expulsaria os empregados da canção se os encontrassem puxando uma páia ou andando pela cidade pra fazer “um quilo” ou, talvez pior, por eles estarem falando coisas que não entendem?

 

 

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