Programação normal

Agora, que já desopilamos o fígado diante da patética tentativa de reeditar a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, 50 anos depois, creio que é chegada a hora de voltarmos à programação normal.

Já entendemos que a volta dos militares ao poder em pleno 2014 é, no máximo, uma possibilidade distante. Já deu para a gente perceber também que aquelas figuras, tornadas caricatas pela passagem do tempo que compareceram à primeira marcha ainda existem em nossa sociedade, mas apenas de forma residual. São reedições meio cômicas do que representavam há meio século (como, aliás, a própria marcha) e, hoje, não oferecem ameaça concreta. Os militares de pijamas que compareceram e apoiam a volta do regime de 1964 ainda babam de ódio como é de seu feitio, mas essa baba não corre assim tanto risco de respingar em nossa ainda frágil democracia. Sabemos, também, é certo, que existe uma juventude saudosa, preocupantemente saudosa, de uma época de nossa história que nunca viveu e que a enxerga, por isso mesmo, sob uma ótica romantizada, distorcida e rasa. Mas não nos preocupemos tanto: fetichizações do passado são comuns entre os jovens. Eu mesmo tive as minhas. Não envolviam tortura e cerceamento das liberdades civis, porém, é necessário dizer que as tive. Sabemos, ou deveríamos saber, que uma parcela considerável de nossa população, que não compareceu ao fracasso do dia 22, não se importaria nenhum pouco com a volta dos militares ao poder. Pelo contrário, muita gente iria até ovacionar a volta dos presidentes fardados. Mas isso não é tão importante para esse grupo a ponto de levá-los a fazer algo drástico a respeito, como, por exemplo, sacrificar um sábado de descanso para fazer papel de idiota nas ruas.

Os organizadores da marcha do dia 22 de março de 2014 podem ter dominado espaços democráticos importantes, como as caixas de comentários de notícia da Folha de São Paulo e do G1 mas, felizmente, não tem representatividade política expressiva no mundo real. São apenas seres hiperqueixosos, paranoicos, ressentidos e saudosos, que desejam a volta de um protopassado que existiu somente em suas cabeças ou que, quando vivido, está longe de abranger um todo ponderável. Vamos parar de nos preocupar com esse pessoal. Temos assuntos mais urgentes a tratar.

A direitona hidrofóbica existe, mas é murcha, patética, anacrônica e não é respeitada nem mesmo por quem, ideologicamente, tem pontos de identidade fortes com ela. Existe uma pequena, mas poderosa direita pensante em nosso país que deve estar rindo tanto quanto as esquerdas da piadinha trágica que se revelou a tentativa dos doidinhos de reeditar 1964. Até porque, sabemos ou deveríamos saber também que não há necessidade de reeditar 1964, pois 1964 nunca foi embora.

1964 vive, por exemplo, por meio de suas práticas. Falamos constante e equivocadamente sobre tortura como se fosse algo que magicamente sumiu de nosso mapa de preocupações em algum ponto intangível de fins da década de 1970 ou começo da década seguinte. É mentira. Amarildo está aí para provar que é mentira. Denúncias múltiplas concernentes ao nosso sistema prisional estão aí para provar que nos preocupamos pouco. A periferia sabe que é mentira. Se não sabemos disso, falhamos em perguntar às pessoas que estão mais sujeitas à tortura (os pobres, sem acesso à representação legal adequada e os presos, por exemplo) se ela, a tortura, como ferramenta institucional de controle social, realmente ficou no passado.

1964 vive também, por meio de suas instituições. Não, não estou a falar, por óbvio, do sistema político de exceção que vigorou entre nós por vinte anos: esse foi devidamente soterrado pela Constituição de 1988. Falo, por exemplo, das polícias militares, instituições forjadas não para garantir ao todo da população o direito constitucional à segurança, mas para combater “o inimigo interno”. O inimigo interno é uma parcela da população que deveria, supostamente, estar contemplada pela mesma gama de direitos civis e garantias fundamentais a todos os brasileiros estendida, mas não está. Eles são os nossos “outros”. São os “favelados”, “bandidos”, “vagabundos”, “vândalos” ou qualquer outro nome que quisermos a eles imputar. Gostamos de rotular, e o rótulo, nesse caso é uma estratégia de exclusão. “Direitos Humanos para humanos direitos”_ como é triste viver em país que repete isso à exaustão!

1964 vive ainda por meio da perpetuação de uma certa mentalidade da época. Se antes os baluartes do conservadorismo eram seres para nós exóticos, como os membros da TFP, hoje os temos no Congresso e, pior: muitas vezes na base de apoio de um partido que foi eleito com uma plataforma de esquerda. Bolsonaro é do PP, partido que ainda integra a base do governo Dilma Rousseff. O PSC de Feliciano estava apoiando o governo federal até outro dia. Eduardo Cunha é uma liderança do partido mais cortejado por todos que almejam o poder no Brasil, o PMDB. E assim, no último mandato, o governo eleito do PT transigiu com 1964, abdicando de muitas conquistas em matérias de Direitos Humanos, em troca de vitórias no legislativo. Somos sim obrigados a transacionar com 1964, pois 1964 está em todos os lugares de nossa política institucional, mas não devemos nunca, ao menos na minha humilde opinião, negociar com Direitos Humanos. O governo, nos últimos anos, o fez.

1964 vive ainda na brutal desigualdade social que é uma das marcas registradas de nosso país. Os governos do PT conseguiram avanços consideráveis nessa área, aumentando o poder de consumo das classes mais pobres e conferindo (sim) cidadania a uma parcela considerável da população por meio de programas sociais vitoriosos, como o Bolsa Família. Mas não basta. Nossa sociedade, viciada que é, não só por 1964, mas por 500 anos de história, não reconhece ainda uma Cláudia Silva Ferreira como uma igual. Não a considerou uma igual ao menino João Hélio, morto em circunstâncias em quase tudo idênticas. João Hélio tinha um nome desde a primeira manchete; ela só passou a ter depois de muita insistência das militâncias das redes sociais. Isso diz mais ainda sobre nós: não só a desigualdade social que existe no Brasil ainda grita, como também o nosso racismo (aquele que nós acostumamos a negar).

1964 ainda vive em nosso autoritarismo. Estranho que no ano do cinquentenário do golpe, tenham surgido propostas de leis com um viés bastante claro de criminalizar as manifestações de rua. Estranho que nessa mesma triste efeméride, o governo federal tenha decidido deslocar tropas do exército para o Rio, a propósito de combater ataques à UPP, que, aliás, estão longe de serem unanimidades nas próprias comunidades “pacificadas”. Incomoda também o fato de que a polícia, com o aval dos governos de diferentes partidos, tenha se dedicado com empenho quase inédito, a mobilizar seus órgãos de inteligência na tentativa de identificar (ou inventar) lideranças das manifestações do ano passado, com o claro intuito de, pela via da persecução criminal, dissuadi-las de participar de novos atos similares. Antes eram a CIA e os Estados Unidos que nossos governos pretendiam agradar. Agora, parece ser a FIFA.

Muita coisa mudou desde 1964. Podemos, por exemplo, criticar os governos e, como restou provado pela Marcha do dia 22, até pedir sua derrubada. Mas ainda há muito por mudar. Portanto, proponho o seguinte: foi bom que a Marcha tenha fracassado. Foi hilário. Foi divertido. Mas não podemos baixar a guarda.

Voltemos à programação normal.

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