Respeite os mais velhos

O vizinho do apartamento 803, um senhor idoso, de respeitáveis bigodes brancos e dois sobrenomes que jamais se separam, mandou, tempos atrás, avisar que nada será tolerado. Nenhum barulho, nenhuma indiscrição, nenhuma conduta que escape à normalidade. Não será tolerado que se beba, não será tolerado que se converse fora das horas em condomínio expressamente permitidas ou não prescritas em estatuto. Manda avisar que fará uso de sua autoridade de síndico, conseguindo, se cabível, infligir ao condômino subversivo, uma pesada multa em certa quantidade de cruzeiros, devidamente atualizada e corrigida e, ainda, uma belíssima e inplacável possibilidade de despejo a todos que se rebelarem contra tais regras.

O vizinho do apartamento 803 tolerou, porém, muita coisa, tempos atrás. Torturas (sempre alheias), prisões, desaparecimentos. Tolerou que a polícia invadisse o prédio e levasse embora estudantes. Tolerou que o país fosse tomado por uma ditadura, apoiou até. Não queria ter que dividir o apartamento 803 com uns tantos socialistas, um povo fedorento. Acreditou na conversa dos jornais e, até hoje, sustenta. “Não era assim tão ruim em 1970”, alega. “Só apanhava quem falava mal do governo”. Ele nunca apanhou.

O vizinho do apartamento 803, diz-se, tinha uma filha. Tinha. Renegou a menina quando a menor envolveu-se com um comunista, lá pelos idos de 1972, trazendo vergonha para a sua residência, seu lar, sua inexpugnável fortaleza, o apartamento 803. Fazia faculdade a jovem, ele devia ter previsto a sua queda. Os estudantes, por aqueles tempos, eram todos socialistas incontroláveis. Engula o choro, vizinho, ou chore em silêncio, sua filha é passado.

Foi presa. Quem vai preso nunca vai preso por rezar em excesso.  Sumiu e, se sumiu, tinha algo a esconder. Tinha ainda outro filho o vizinho, formado do ITA, que ainda está por aí. Fique feliz, afinal, nem toda semente é podre.

Nunca quis saber o que houve com a menina? Consegue odiá-la imaginando que ela foi pra Cuba, ficou por lá, e isso te consola?  Sua mulher até que quis, procurou saber, foi atrás. Mães, você sabe como são as mães…. Sentimentais! Incontroláveis! Mas mães também se cansam. Ou não. Fingem que se cansam. Mas você não, vizinho. Você tem certeza de que eles nunca fariam mal àquela que um dia foi a “sua princesa”. Eles não matariam a sua princesa. Apenas a justiçariam e justiçar é fazer justiça. Justiça não é ruim. Um exílio em Cuba. Uma breve expatriação provar-se-ia de fato, didática! Quem sabe? Sua esposa não, meu caro viúvo. Talvez ela tenha morrido querendo saber da menina. E você, nada! você e sua confiança inabalável. Você que sabe o que é certo. Você que até, bem no fundo, até sente, mas deixa. Você.

Ela deveria estar com 57 anos, mas você é o síndico. E tem dois sobrenomes que jamais se separaram. Você tem bigodes respeitáveis, encontra com seus três amigos sobreviventes em um café, arrotam qualquer coisa sobre a juventude e isso, meu caro síndico, é vida que passa. Você, aposentado de um banco estatal, até que levou bem as coisas, com dignidade. Não morreu, não se abateu. Sua filha deve ter sumido por conta própria. Na época dos militares as coisas iam bem. Só se machucava quem tinha tempo pra falar mal do governo. Você estava ocupado, você não tinha tempo. Você.

Você fez o possível! Não se sinta culpado. Mesmo que um dos seus amigos mais queridos, o vizinho do 704, (um senhor de muito respeito, nunca deu trabalho) tenha aparecido na TV, como responsável por levar a cabo torturas contra subversivos apenas recentemente, você não acredita que as pessoas seriam bárbaras e pouco compreensivas o bastante para aplicar a uma jovem (como sua filha) uma pena que fosse além de uma multa de tantos cruzeiros (devidamente corrigidos) ou , no máximo, de uma expatriação para Cuba.

Daí, você se lembra o que disse ao seu filho (o do ITA), o que disse a ele quando seu cachorrinho, prematuramente, morreu. Você disse a ele que ele, o totó, estava em um lugar melhor. Na fazenda, você disse a ele que o totó estava na fazenda. Correndo, brincado, fazendo coisas que o totó gostava de fazer. Aí você até poderia perceber que você é o menino que mais tarde se formaria pelo ITA e sua filha, sua filha é o totó. Mas você se cala. Você tem bigodes respeitáveis e dois sobrenomes que jamais se separam. E você acredita, meu senhor, você acredita.

Você até disse ao menininho que passaria, mais tarde, no vestibular do ITA, que a irmãzinha dele foi pra Cuba. Você é um mentiroso, senhor síndico, ou simplesmente acredita demais no que diz?

Recentemente, o senhor, seus bigodes, seus dois sobrenomes e seu inabalável status de aposentando de estatal, pegaram o elevador comigo. Eu os vi e disse bom dia. Ele olhou para a minha cara de socialista, de estudante mequetrefe de 40 anos atrás, de comuna dos infernos e sorriu, quase chorando. Você precisava me falar de algo. Diria talvez que eu lembrava aquele rapaz, que namorou com sua filha e hoje, deve estar também em Cuba, pois também sumiu.   Eu não quis conversar. Moro no mesmo 704 que o seu amigo, o torturador, mas anos depois de ele ter se mudado para um lugar melhor. Sua aposentadoria paga lugares melhores.

Eu não quis ouvir, respeito os mais velhos mas não sou obrigado.

O senhor, seus bigodes e seus dois sobrenomes que jamais se separaram vão morrer. Sua filha ainda deve estar em Cuba, pois jamais, jamais! fariam mal a ela. Seu filho mora em São José do Rio Preto e se filiou ao PT (aquele inútil). O apartamento 803 será vendido, poderá até virar uma república de estudantes socialistas com um sobrenome só ou até nenhum.

E se você, em sua idade provecta, ainda está cego, acredito que vá morrer cego. Mais não falo. Eu respeito os mais velhos.

 

 

 

 

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