Tá lá o corpo estendido no chão…

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Foto Júlia FV

Em um muro de um escola estadual, em uma rua de um bairro da periferia da região metropolitana de Belo Horizonte, as marcas de bala ainda lá se encontram. Na época do ocorrido, que já conta mais de um ano, o mato que nascia entre o meio fio e o asfalto jazia grande, mas sem incomodar os moradores daquele lugar. Diferente destino, talvez, imaginasse que teria aquele corpo, que na época dessa história, ali caiu com vários furos nas costas. As manchas no chão, no tempo presente desta narrativa, não mais se veem. Mas as marcas balas, que na época da história foram inauguradas, ainda lá se encontram. A escola não deixou de ser escola. As crianças, espera-se, também aparentam ainda serem crianças.

O fato, na época da história, ocorreu em uma noite de carnaval. Quinta, sexta, ninguém se lembra ao certo. O certo é que muita gente se juntou para ver aquele corpo estendido no chão. Um rapaz, com os seus prováveis 20 e poucos anos, ali se configurava como uma espécie de ator de uma cena de uma telenovela ou dando uma certa realidade aos noticiários da TV. Nesse caso, talvez menos real do que as imagens que brilham na tela e todos julgam ser a realidade real da vida. Vai saber. Independente disso, o que parecia, ali, era que as pessoas manifestavam um certo prazer em presenciar a desgraça alheia. Seria, talvez, a beleza do morto que um certo autor, sociólogo, um dia falou em um dos seus livros. 

Na esquina daquela rua talvez nunca se tivesse visto tanto carro da polícia. Reportagem, mesmo acionado por vários canais e pessoas diferentes, não apareceu. Os jornais nada falaram. No momento daquela história, várias pessoas comentavam que ele tinha sido morto por um policial do bairro que, ao ter o carro assaltado, achou por legítimo atirar no rapaz… pelas costas. Na época dessa história, apenas um rapaz vestido de uma bermuda, chinelos de dedo e uma camiseta foi visto no chão. Há quem tenha tentado tirar algumas fotos e denunciar aquilo que parecia, e tudo levava a crer, um abuso de poder, mas ninguém o diria ali naquele momento. Mas, ao que parece, existem regras, mas elas não valem para todos os lugares. Um senhor confirmava, no momento do ocorrido, essa tese. A seu ver, “quem mandou ele roubar policial!”. 

No tempo presente desta narrativa, novamente o carnaval se aproxima. E, novamente, pode-se ver a grama entre o asfalto e o meio fio. A escola ainda está lá e ainda é uma escola. As crianças ainda frequentam esse espaço, mas não agora, por estarem de férias. Diferente do instante anterior ao tempo dessa história, mas como uma metonímia do passado, ainda restam as marcas no muro. Curiosas marcas essas que insistem em relegar ao futuro um ponto de acesso às memórias de tempos idos. Historicamente.

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