X є R / -2 < x < 9

Captured on A45 ECO

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Tirou rapidamente uma ponta do bolso e a acendeu sem fazer muita novela. Sabia que tinha que ser rápido para não chamar a atenção de quem por ali passasse, se bem que sempre achara que as pessoas nunca soubessem distinguir cheiro de maconha de cigarro, “careta”, que todo mundo fumava o dia inteiro. Também sabia que, naquele horário de “jornal nacional” e, depois, novela das 8, poucas pessoas passavam por ali, a não ser a polícia.

Aquele poste daquela esquina já se tornara um lugar “agenda” da moçada ali daquele pedaço de bairro. Não raro pode-se ver 3 ou 4 amigos sentados por ali trocando ideias, marcando um tempo, curtindo uma “brisa”. Naquela noite, entretanto, ele sentou-se sozinho. “Menos mal”, pensou. De um tempo para cá, nem estava curtindo tanto compartilhar seu tempo com outros “chegados”. Andava um pouco calado, mais do que de costume, e, talvez, um pouco mais fechado em seus próprios pensamentos.

Recentemente fizera 18 anos e a vida parecia estar ficando cada vez mais séria. Não que em algum momento ela tivesse sido mais “leve” ou “tranquila”, mas é que, agora, as cobranças pareciam estar se acumulando em suas costas.

Ainda não havia terminado o 2º grau na escola em que estudava. Na verdade, pouco interesse tinha para continuar a ir à escola. Ficou pensando que teve uma época de sua vida de estudante, talvez lá pela 7ª série, que ele ainda tinha esperança em ser “alguém na vida” e a escola parecia oferecer uma saída, mas não demorou muito e ele desistiu de insistir. Talvez de tanto ouvir dos professores que ele e praticamente o resto dos alunos daquela escola eram “casos perdidos”, que nunca “dariam em nada”, que era um erro se gastar tanto dinheiro público com eles que ele acabou por aceitar o que ouvia. Na verdade, isso pouco o afetava. Nunca conseguira entender mesmo o que tudo aquilo que tentavam ensinar pudesse, realmente, ser útil um dia. “X є R / -2 < x < 9” para ele nada dizia. Era algo tão distante de sua vida cotidiana que nem ligava para aprender ou não aquilo. Ficou pensando que também seus professores não teriam a menor condição de entender o que eles e os amigos pixavam pela cidade. Pensou na frase “cada um com seus os corres” e riu.

Sabia, entretanto, e isso não aprendeu na escola, que não podia cair na mão da polícia. Era uma das poucas regras de sobrevivência que não podia vacilar. Fumava o seu na boa, “sem dar alarde”, não vacilava nas bocas na hora de comprar o seu, ia pra escola, descolava uns bicos sempre que precisava de algum. Não gostava de pedir dinheiro pra mãe, que como todas as mães por ali era doméstica e trabalhava durante todo o dia “na casa dos outros”, para manter o seu fumo. O pai desempregado há mais de 3 anos, nunca mais conseguira trabalho fixo em nenhum lugar. “Pedreiro de mão cheia”, como diziam dele por todo lugar em que o conheciam, já não tinha mais força pra trabalhar como antes. “Depois que a cachaça tomou conta”, como a mãe dizia, o velho envelheceu rapidamente. Não raro o encontrava caído todo sujo e imóvel e com a respiração pesada na pequena sala de casa. Aquilo, na verdade, já não o incomodava mais. Tomava apenas o cuidado de não cair na mão da polícia e não dar mais esse “desgosto” pro pai.

Ficou mais um tempo ali na esquina pensando nas coisas que um dia desejou ser. Jogador de futebol, mecânico, bombeiro… quem sabe um dia ir pra faculdade e ser advogado. Pensava como eles nunca iam presos, sempre tinham os melhores carros e as mulheres mais bonitas. Deu um sorriso e pensou “que nada! Isso é coisa pra nego branco, daqueles playboys que tem dinheiro pra ter mais dinheiro!”. Não sabia o que seria de si, mas naquele momento, isso parecia pouco importar.

Olhou no celular e chegou a conclusão que ainda poderia ficar ali uns poucos minutos. Em sua casa, a mãe possivelmente estava cochilando à frente da televisão enquanto passava uma novela qualquer. O pai se encontrava em qualquer boteco e não tardava chegar em casa chapado de cana. A irmã mais velha ainda não chegara do trabalho e o irmão mais novo, certamente, estaria dormindo no sofá ao lado da mãe.

Passaram-se mais uns 2 minutos e ele se levantou e foi em direção ao barraco onde morava. Assim que entrou, passou pela rua uma viatura da polícia que rondava o bairro. Virou a esquina e, como um fantasma, se perdeu dentro do bairro.

Naquela noite, ele deitou e dormiu em paz.

Um comentário em “X є R / -2 < x < 9

  1. Du caralho Valdeci!! Por incrível que pareça tive vários dias como esse! Inclusive depois de formado! heheheh!! Perdido sem saber o que fazer da vida… pensando em todas as coisas do mundo e tirando conclusões e … rindo delas…

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